Abeeólica defende fim de subsídios e alerta sobre curtailment

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Abeeólica defende fim de subsídios e alerta sobre curtailment

Presidente Elbia Gannoum adverte que o Brasil "rasga seu bilhete de loteria" ao atrasar regulamentações e focar em térmicas inflexíveis, destacando as baterias e os data centers como vetores cruciais da transição

Por Marcelo Furtado

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A presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum, traçou um panorama desafiador e repleto de oportunidades para o setor elétrico nacional em entrevista ao programa As Lideranças Empresariais. A executiva apontou que o país não vive um problema estrutural de excesso de energia, mas sim gargalos de gestão de oferta em horários específicos, o que tem agravado o curtailment (cortes de geração) para as fontes renováveis.

Para resolver o compasso de espera nos investimentos, a representante da ABEEólica defendeu a adoção imediata de sinais de preços horários, a inclusão de baterias nos leilões do sistema e o fim generalizado de subsídios que encarecem a tarifa na ponta. Além disso, destacou o papel estratégico da matriz interligada do Brasil para abrigar o avanço global dos data centers e da economia verde, frisando que a falta de agilidade regulatória faz o Brasil correr o risco de "perder para si mesmo".

Elbia também ressaltou a necessidade de acelerar iniciativas como o Redata, voltado à atração de data centers, e a regulamentação de marcos legais relacionados ao hidrogênio verde e à descarbonização da economia. Para a dirigente, o Brasil reúne condições únicas para liderar a transição energética global graças à combinação de abundância de recursos renováveis e à robustez do Sistema Interligado Nacional (SIN).

Ao longo da conversa, a presidente da Abeeólica abordou ainda a regulamentação dos cortes de geração, o papel das baterias, a limpeza de projetos inviáveis da rede, as perspectivas para a eólica offshore, o fortalecimento da cadeia produtiva nacional e os desafios da COP30. Em sua avaliação, o país possui uma vantagem competitiva rara, mas precisa transformar esse potencial em investimentos concretos por meio de planejamento, segurança regulatória e estímulos à demanda.

Veja os principais pontos da entrevista:

Curtailment exige soluções estruturais: A dirigente classificou o curtailment como o principal ponto de tensão das renováveis no Brasil. Segundo ela, cortes que já atingem até 45% de alguns parques deveriam estar em níveis próximos de 3% a 5%. Além do ressarcimento financeiro previsto em lei para os prejuízos dos geradores, a solução estrutural passa pela ampliação da demanda, contratação de baterias, revisão de subsídios e aperfeiçoamento dos sinais de preço.

Mecanismo de preços precisa ser reformulado: Para Elbia, o atual modelo brasileiro não transmite adequadamente sinais de escassez e abundância ao consumidor. A adoção de tarifas horárias mais aderentes às condições do sistema poderia estimular o deslocamento do consumo para períodos de maior oferta renovável, reduzindo desperdícios e a necessidade de despacho de térmicas nos horários de ponta.

CP 45 preocupa geradores renováveis: A executiva criticou a proposta de classificação dos cortes de geração em discussão na Aneel. Segundo ela, a metodologia pode ampliar os impactos econômicos sobre os geradores ao enquadrar inadequadamente eventos de confiabilidade como cortes energéticos. A associação também contesta a equiparação entre eólicas e hidrelétricas em determinados critérios regulatórios.

Baterias devem ser contratadas como solução sistêmica: A Abeeólica defende que os futuros leilões de armazenamento tratem as baterias como soluções energéticas completas e não apenas como fontes de energia. Além de reduzir o curtailment, os sistemas de armazenamento podem fornecer serviços ancilares, estabilidade elétrica e suporte ao atendimento da demanda nos horários de pico.

Limpeza da fila libera espaço para projetos viáveis: A aprovação do chamado segundo “dia do perdão” pela Aneel foi considerada positiva pela entidade. A medida deve permitir a retirada de projetos sem viabilidade econômica ou comercial que ocupam capacidade de escoamento na rede, liberando espaço para empreendimentos já contratados e efetivamente aptos a avançar.

Data centers e hidrogênio podem criar nova demanda: Para a presidente da Abeeólica, o maior desafio do país hoje não é a falta de oferta de energia, mas a ausência de crescimento mais acelerado da demanda. Nesse contexto, data centers, hidrogênio verde, eletrificação da economia e descarbonização industrial são apontados como os principais vetores capazes de absorver a expansão das renováveis ao longo da próxima década. E rebate a ideia de que a variabilidade eólica e solar inviabilize o suprimento 24x7 exigido por data centers, já que 97% do consumo está no SIN e investidores que se conectam à rede têm acesso a uma energia 93% limpa de forma ininterrupta.

Eólica offshore mira cenário pós-2030: Elbia rejeita a avaliação de que a atual sobreoferta inviabilize projetos offshore. Segundo ela, os primeiros empreendimentos só deverão entrar em operação a partir de 2031 ou 2032, quando o sistema elétrico brasileiro já deverá enfrentar uma realidade bastante diferente, marcada pela expansão de novas cargas eletrointensivas e pela crescente eletrificação da economia.

Fim dos subsídios e foco na demanda: Como síntese da agenda prioritária para desenvolver o setor de energia, a executiva defendeu o encerramento gradual dos subsídios setoriais e a criação de políticas capazes de estimular o crescimento da demanda. Em sua avaliação, o Brasil possui um ativo estratégico raro na forma de energia renovável abundante e competitiva, mas precisa acelerar a regulamentação, reduzir encargos e criar condições para transformar essa vantagem em desenvolvimento econômico.

 

Assista à entrevista na íntegra aqui

 

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