Volkswagen cobra etanol mais eficiente para ampliar uso
Gerente de descarbonização da montadora defende pesquisa para elevar poder calorífico e volatilidade e estimular escolha do biocombustível
O etanol brasileiro precisa evoluir em qualidade e especificação para ganhar eficiência e ampliar sua participação no abastecimento dos veículos flex, segundo Roger Guilherme Godim, gerente de Descarbonização da Volkswagen. Em entrevista à Brasil Energia, o executivo afirmou que, enquanto as montadoras avançam na redução do consumo energético dos veículos, inclusive com a hibridização, os produtores de combustíveis também deveriam investir em pesquisa para entregar um etanol com maior poder calorífico e volatilidade.
“Enquanto nós, montadoras, estamos trabalhando para melhorar o consumo energético do carro, por exemplo por meio da hibridização, talvez os colegas que produzem o combustível pudessem, pelo lado deles, também ter pesquisas para melhorar a especificação do combustível”, disse.
Godim aponta dois atributos que poderiam ser aprimorados. O primeiro é o poder calorífico, diretamente relacionado à autonomia. Segundo os números apresentados pelo executivo, o etanol tem poder energético de 20,09 MJ/l, ante 28,99 MJ/l da gasolina de referência E22. A diferença faz com que o veículo percorra menos quilômetros por litro com etanol, um fator que, segundo ele, ainda pesa na decisão do consumidor.
A segunda questão é a baixa volatilidade do etanol hidratado. Uma eventual redução de sua umidade poderia melhorar a volatilidade e favorecer a combustão na fase fria do motor, reduzindo emissões de poluentes associados à queima incompleta. Qualquer mudança, ressalvou, exigiria pesquisa, testes e previsibilidade para consumidores e indústria.
A proposta integra a visão da Volkswagen de que a descarbonização dos veículos flex pode avançar por dois caminhos simultâneos. De um lado, a eletrificação reduz a energia necessária por quilômetro rodado. De outro, elevar a preferência pelo etanol — hoje estimada por Godim em cerca de 30% dos abastecimentos dos flex — permitiria reduzir as emissões sem depender exclusivamente da renovação da frota.
A própria hibridização pode contribuir para contornar a menor autonomia do biocombustível. Ao reduzir o consumo, o sistema híbrido permite percorrer mais quilômetros com o mesmo tanque, diminuindo uma das resistências do consumidor ao etanol. É nessa direção que a Volkswagen trabalha com sua estratégia de veículos híbridos flex.
Godim considera que motores dedicados exclusivamente ao etanol poderiam obter eficiência adicional, mas pondera que o ganho não seria “absurdo”. Na Volkswagen, segundo ele, os motores flex são desenvolvidos para operar adequadamente com os dois combustíveis. Um veículo altamente orientado ao etanol também teria de lidar com o fato de que parte dos consumidores continuará optando pela gasolina.
Outra frente sugerida pelo executivo é pesquisar novas formulações. Uma possibilidade seria avaliar a viabilidade econômica do fornecimento de etanol anidro diretamente como combustível. Outra seria combiná-lo com pequenas parcelas de hidrocarbonetos de origem renovável, de modo a buscar maior poder calorífico. “Será que não existe um hidrocarboneto que a gente pudesse misturar um pouquinho para ganhar mais poder calorífico? Será que isso é economicamente viável? Não sei. Tem que testar nos motores. Para isso precisa de pesquisa”, disse.
O executivo também chamou atenção para a qualidade do combustível comercializado. Segundo ele, testes de campo das montadoras encontram casos de adulteração tanto na gasolina quanto no etanol, o que dificulta inclusive a validação dos veículos. Para Godim, garantir qualidade consistente nas bombas é outro requisito para aumentar a confiança do consumidor no biocombustível.
Na avaliação do gerente, portanto, o avanço do etanol no transporte leve não depende apenas de motores mais eficientes. A indústria automobilística pode reduzir o consumo por meio da eletrificação, mas a cadeia sucroenergética teria de atuar simultaneamente na evolução do combustível. Quanto maior a eficiência e a confiança no etanol, argumenta, maior tende a ser sua escolha pelos proprietários de veículos flex — e, consequentemente, sua contribuição para a descarbonização da frota.
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