Gás em veículos pesados pode absorver parte da oferta do Seap
Gabriel Kropsch, da Sinergás, defende substituição do diesel por gás natural e biometano como alternativa imediata para ampliar a demanda e reter em Sergipe os benefícios do projeto de águas profundas
A substituição do diesel por gás natural e biometano no transporte pesado pode ser uma das formas mais rápidas de absorver parte da nova oferta prevista com o projeto Sergipe Águas Profundas (Seap). Em entrevista à Brasil Energia, Gabriel Kropsch, sócio-fundador da Sinergás, afirmou que o uso do combustível em caminhões e ônibus já apresenta vantagens econômicas e dispõe de tecnologia e soluções de abastecimento disponíveis no país.
Segundo Kropsch, Seap poderá produzir até 22 milhões de m³/dia de gás natural, volume superior à produção atual de toda a região Nordeste. Embora setores como indústria, geração termelétrica e fertilizantes tenham potencial para consumir esse gás, os projetos exigem investimentos elevados e prazos mais longos de implantação. O transporte pesado, por outro lado, poderia gerar demanda de forma mais imediata, começando por frotas com rotas curtas, circulares ou dedicadas.
Veja os principais destaques:
Seap terá impacto sobre o mercado nacional
Kropsch classificou Sergipe Águas Profundas como um projeto transformador para Sergipe, para o Nordeste e para o mercado brasileiro de gás natural. O empreendimento, discutido há décadas, poderá acrescentar até 22 milhões de m³/dia à oferta nacional. Para efeito de comparação, segundo o executivo, a produção atual de gás natural em todo o Nordeste é de aproximadamente 13 milhões de m³/dia, enquanto o consumo regional gira em torno de 15 milhões de m³/dia. O desafio, afirmou, será criar demanda suficiente para aproveitar os novos volumes e transformar a produção em atividade econômica no estado.
Transporte pesado oferece demanda imediata
A substituição do diesel no transporte de cargas e passageiros foi apontada como uma das principais oportunidades para ampliar rapidamente o consumo de gás. Segundo Kropsch, o combustível pode ser utilizado em caminhões de distribuição urbana, veículos de longa distância, frotas da agroindústria, ônibus municipais e ônibus intermunicipais. O executivo afirmou que o custo do gás natural é significativamente inferior ao do diesel e que, para algumas empresas, os créditos tributários relacionados à compra do combustível ampliam a vantagem econômica. Além da redução de custos, a substituição permitiria manter no estado uma parcela maior da riqueza gerada pela produção local de gás.
Tecnologia de veículos já está disponível
O mercado brasileiro já conta com diferentes fabricantes de caminhões e ônibus movidos a gás natural ou biometano. Os modelos disponíveis atendem operações de distribuição urbana, transporte rodoviário de longa distância, atividades agroindustriais e transporte coletivo de passageiros. Segundo Kropsch, a tecnologia já está consolidada internacionalmente há décadas e começa a ganhar escala no Brasil. Mais de 3 mil caminhões movidos a gás natural ou biometano já estariam em circulação no país.
Postos existentes podem ser adaptados
A infraestrutura de abastecimento é um dos elementos necessários para a expansão desse mercado. Uma das alternativas é adaptar postos de GNV existentes para atender veículos pesados. Como a maior parte dessas unidades foi projetada para carros de passeio, táxis e veículos de aplicativos, são necessárias mudanças nos equipamentos e na estrutura de atendimento. Kropsch afirmou, no entanto, que a adaptação não exige investimentos elevados e pode ampliar o atendimento a caminhões e ônibus nas principais rotas logísticas.
Empresas podem instalar pontos próprios
Outra possibilidade é a instalação de pontos de abastecimento dentro de indústrias, centros de distribuição, garagens de ônibus ou pátios de transportadoras. Diferentemente de um posto comercial, o ponto de abastecimento é destinado ao consumo da própria empresa. A estrutura pode ser instalada diretamente pelo operador ou contratada por meio de locação. Nesse modelo, empresas especializadas elaboram o projeto de engenharia, instalam e alugam os equipamentos, reduzindo a necessidade de investimento inicial do consumidor.
Gasoduto virtual atende áreas fora da rede
Quando a garagem ou unidade industrial está próxima da rede de distribuição, o abastecimento pode ser realizado diretamente por gás canalizado. Essa alternativa oferece menor custo, fornecimento contínuo e maior previsibilidade para a operação da frota. Nos locais sem rede, o gás pode ser transportado por meio do chamado gasoduto virtual, utilizando gás natural comprimido (GNC). Para Kropsch, essa solução permite atender operações mesmo em regiões mais afastadas da infraestrutura canalizada.
Rotas circulares devem avançar primeiro
A velocidade de adoção deve variar de acordo com o tipo de operação logística. Frotas que percorrem rotas curtas e retornam diariamente ao mesmo ponto apresentam condições mais favoráveis para a implantação. Entre os exemplos estão caminhões de coleta de resíduos, veículos de entrega de bebidas e alimentos, ônibus urbanos e frotas dedicadas ao transporte entre fábricas e centros de distribuição. A indústria sucroenergética também possui potencial para utilizar biometano produzido localmente no abastecimento dos próprios veículos.
Substituição pode começar por parte da frota
No transporte de longa distância, a viabilidade depende da rota, da autonomia necessária e da disponibilidade de abastecimento. O Brasil possui uma rede ampla de postos de GNV, embora nem todos estejam adaptados para veículos pesados. Kropsch ressaltou que a quantidade de postos não é necessariamente o principal obstáculo, já que outros mercados operam grandes frotas com redes menores. Para o executivo, as transportadoras não precisam substituir todos os veículos de uma só vez. A adoção pode começar pelas rotas dedicadas ou pelos segmentos da operação com maior previsibilidade, gerando economia desde o início e formando gradualmente um novo mercado consumidor de gás.
Assista a entrevista na íntegra aqui.
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