Opinião

Blockchain: combatendo o greenwashing no setor de energia

A tecnologia permite a certificação de origem da geração de energia limpa e simplifica a gestão de créditos de carbono, garantindo que exclusivamente a energia renovável, devidamente comprovada, seja convertida em créditos

Por Paulo Menzzano

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Em um mundo cada vez mais atento às questões ambientais, distinguir o que é realmente sustentável do que é apenas discurso se tornou um desafio. Muitas empresas se apresentam como "eco-friendly", mas nem sempre cumprem suas promessas, prática conhecida como greenwashing. Nesse cenário, uma inovação tecnológica surge como aliada da transparência: o blockchain.

Embora amplamente reconhecida por seu papel nas criptomoedas, essa tecnologia vem ganhando espaço em setores estratégicos, como o de energia. Sua principal vantagem está na rastreabilidade, permitindo verificar com precisão a origem da energia consumida e, mais importante, assegurar que ela seja, de fato, limpa e renovável.

A verdade por trás das promessas ambientais é essencial para garantir que as ações das empresas realmente correspondam aos compromissos assumidos, especialmente em um momento em que o mercado de investimentos e as práticas de governança no Brasil estão cada vez mais exigentes.

De acordo com o ESG Disclosure Yearbook Brasil 2024, elaborado pela Bells & Bayes Rating Analytics, 63% das organizações divulgaram relatórios de sustentabilidade. No entanto, dentro das que seguem os padrões mais rigorosos de governança na bolsa brasileira, apenas 29% tiveram seus dados auditados ou validados por fontes externas, evidenciando a fragilidade na inspeção dessas informações.

Quando incorporada ao ramo de energia, a tecnologia blockchain aumenta a clareza e confiabilidade, permitindo a certificação da geração de energia limpa. Além disso, simplifica a gestão de créditos de carbono, garantindo que exclusivamente a energia renovável devidamente comprovada seja convertida em créditos. 

A aplicação dessa tecnologia ganha ainda mais relevância no Brasil graças à sua matriz energética diversificada e com grande potencial para a geração de energia sustentável a partir de fontes como sol, vento e recursos hídricos.

Segundo dados da Absolar, a energia solar deve crescer 25% em 2025, com a adição de 13,2 GW à capacidade instalada no país. Já se tratando de energia eólica, o Global Wind Report 2024 do Conselho Global de Energia Eólica aponta que esse tipo de energia entra em uma fase de expansão acelerada, impulsionada por metas como a da Cop28 de triplicar as renováveis até 2030. A projeção de crescimento para 2024-2030 subiu 10%, para 1.210 GW,

Outro benefício do rastreamento é o comércio de energia peer-to-peer (P2P), que permite aos consumidores vender excedentes diretamente, sem intermediários, deixando o processo mais ágil e econômico. O governo iniciou a abertura gradual do mercado livre de energia, possibilitando que, desde janeiro de 2024, compradores conectados em alta tensão escolham seus fornecedores, independentemente da demanda contratada.

Além disso, a tokenização de ativos possibilita a representação digital de infraestruturas como fazendas solares e turbinas eólicas, ampliando o acesso a empreendedores e aumentando a liquidez do setor.

Apesar das vantagens, a implementação dessas soluções enfrenta desafios. As redes blockchain têm limitações no processamento de grandes volumes de transações, devido a restrições nos algoritmos e nos processos de certificação. Ainda assim, questões regulatórias, como o licenciamento de projetos, atrasam a adoção.

No entanto, o setor tem avançado com iniciativas como o Projeto de Lei nº 3.434/2024, que trata de tokens para ativos ambientais digitais e estabelece critérios para sua emissão e comercialização, sinalizando progresso significativo.

Mesmo com essas barreiras, o rastreamento de energia por meio da tecnologia blockchain pode ampliar a disponibilidade de investimentos, surgindo como uma alternativa viável para garantir a credibilidade na sustentabilidade do setor. Essa abordagem fortalece a transparência e impulsiona práticas responsáveis e inovadoras, essenciais para o futuro energético.

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