Flexibilidade na transição energética na América Latina
Opinião
Flexibilidade na transição energética na América Latina
Alguns exemplos regionais ajudam a ilustrar caminhos possíveis. O Chile integra solar e eólica com leilões previsíveis e marcos regulatórios claros. O Uruguai construiu uma matriz majoritariamente renovável com planejamento de longo prazo e coordenação entre fontes
A transição energética na América Latina avança em ritmo acelerado, impulsionada pela expansão das fontes renováveis, pela digitalização dos sistemas elétricos e por uma agenda cada vez mais clara de descarbonização. No entanto, à medida que a matriz se torna mais limpa, ela também se torna mais complexa. Nesse novo cenário, a flexibilidade emerge como um dos atributos centrais para garantir segurança energética, eficiência econômica e estabilidade do sistema.
Nas últimas décadas, países como o Brasil, Chile e Uruguai deixaram para trás uma dependência quase exclusiva das hidrelétricas e passaram a incorporar volumes crescentes de energia solar e eólica. Esse movimento trouxe ganhos importantes, mas também expôs um desafio estrutural: fontes renováveis variáveis não produzem energia de forma constante ou previsível. Sol e vento não respondem à demanda, respondem às condições climáticas.
Durante o dia, a geração solar pode atingir níveis elevados, mas nem sempre coincide com os horários de maior consumo. No fim da tarde, quando a demanda residencial e urbana cresce, essa geração desaparece rapidamente. O mesmo ocorre com a variabilidade dos ventos. Esse descompasso exige sistemas capazes de reagir em minutos, garantindo equilíbrio e evitando riscos de interrupções ou desperdício de energia.
A transição energética, portanto, não se resume à expansão das renováveis. Ela exige equilíbrio entre três pilares fundamentais: sustentabilidade, segurança energética e competitividade. Integrar fontes limpas sem comprometer a confiabilidade do sistema demanda flexibilidade operacional, infraestrutura adequada e modelos regulatórios que reconheçam e valorizem esse atributo.
Ainda hoje, muitos mercados não remuneram adequadamente serviços como resposta rápida, capacidade de backup e estabilidade da rede.
Alguns exemplos regionais ajudam a ilustrar caminhos possíveis. O Chile avançou na integração de solar e eólica com leilões previsíveis e marcos regulatórios claros. O Uruguai construiu uma matriz majoritariamente renovável a partir de planejamento de longo prazo e coordenação entre fontes.
O Brasil, por sua vez, reúne vantagens competitivas relevantes, como escala, diversidade de recursos e uma cadeia madura de biocombustíveis, mas ainda enfrenta o desafio de fortalecer mecanismos que incentivem flexibilidade e resposta rápida.
Outro fator que ganha peso nesse debate é o crescimento acelerado da demanda elétrica associada à digitalização da economia. A expansão de data centers, impulsionada por inteligência artificial e computação em nuvem, exige fornecimento contínuo, confiável e de grande escala. Atender essa nova demanda em sistemas cada vez mais renováveis reforça a necessidade de soluções flexíveis, modulares e rapidamente despacháveis.
Nesse contexto, combustíveis como gás natural, biogás e etanol desempenham papéis complementares na transição. Especialmente no Brasil, o etanol se destaca como uma alternativa de baixo carbono com infraestrutura consolidada e forte integração com o setor agroindustrial, permitindo reduzir emissões enquanto se mantém segurança operacional.
A digitalização também assume papel estratégico. Ferramentas de monitoramento em tempo real, manutenção preditiva e despacho inteligente aumentam a eficiência dos ativos existentes e ampliam a capacidade de resposta do sistema. A aplicação de inteligência artificial à gestão das redes tende a ser um divisor de águas na próxima década.
A América Latina possui enorme potencial para liderar a transição energética global. Para isso, será essencial reconhecer que energia limpa, por si só, não é suficiente. Flexibilidade, planejamento e capacidade de resposta rápida serão determinantes para transformar esse potencial em um sistema elétrico seguro, competitivo e sustentável no longo prazo.



