Revista Brasil Energia | Fenabio 2026

Etanol de milho esbarra em oferta de biomassa para expansão

Escassez de madeira eleva custos e estimula uso de bagaço de cana e outras fontes de energia, diz analista do Bradesco

Por Marcelo Furtado

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Filipi Cardoso, líder de inteligência de mercado do Bradesco (Divulgação)

A rápida expansão do etanol de milho começa a enfrentar um novo gargalo: a disponibilidade de biomassa para fornecer energia às usinas. A escassez de madeira em regiões produtoras e a perspectiva de aumento dos custos estão levando os novos projetos a diversificar suas fontes energéticas e podem reforçar a integração da produção de milho com as usinas de cana.

Para Filipi Cardoso, líder de inteligência de mercado do Bradesco, a energia é hoje um dos principais pontos de atenção na análise de novos projetos de etanol de milho. Segundo ele, ao avaliar o financiamento de uma usina no Centro-Oeste, uma das primeiras questões do banco é justamente de onde virá a energia necessária à operação.

A diferença em relação à cana está na disponibilidade de combustível para as caldeiras. Enquanto as usinas sucroenergéticas geram o próprio bagaço, as unidades dedicadas ao milho precisam garantir outra fonte de biomassa. Cardoso observa que grandes grupos já assumem inclusive o custo agrícola de manter florestas destinadas ao suprimento energético.

A tendência, segundo o analista, é de diversificação. Projetos já estudam alternativas como capim-elefante, casca de açaí e outras biomassas disponíveis regionalmente, além da casca de arroz no Sul. Para unidades sem floresta própria, Cardoso prevê aumento do custo da madeira diante da disputa pelo insumo com outras atividades econômicas. “De fato, é um gargalo muito forte quando a gente olha para a produção de etanol a partir de cereais”, afirmou.

Uma das alternativas é integrar milho e cana. Amaro Silvares, diretor de Estratégia e Negócios Agrícolas da Atvos, disse que a companhia utilizará o bagaço da cana para gerar a energia necessária à sua produção de etanol de milho. Na Unidade Santa Luzia, em Nova Alvorada do Sul (MS), a empresa está estruturando um complexo no qual as plantas de cana e milho compartilharão a fonte energética da caldeira. O empreendimento terá ainda produção de biometano.

“Usamos o bagaço na queima na caldeira para alimentar a energia da planta de etanol de milho”, resumiu Silvares. Para o executivo, além do custo, a origem sustentável da biomassa é estratégica: casos de utilização de material associado ao desmatamento podem comprometer a imagem de todo o setor e dificultar o acesso do etanol brasileiro aos mercados externos.

A restrição energética pode aumentar a atratividade das usinas flex. A possibilidade de aproveitar o bagaço da cana — ou excedentes de usinas sucroenergéticas mais eficientes — reduz a exposição das novas plantas de milho à escassez e ao encarecimento da biomassa florestal.

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