A contribuição da biomassa para a Segurança Energética
Revista Brasil Energia | Termelétricas e Segurança Energética
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A contribuição da biomassa para a Segurança Energética
Biomassa tem 1.827,5 MW novos em 42 usinas em construção ou a construir. A maior usina a biomassa atualmente em construção foi uma das vencedoras do Leilão de Reserva de Capacidade de 2021
Um levantamento feito pela Brasil Energia na base de dados na Aneel mostra que existem atualmente no Brasil 12 termelétricas a biomassa em construção iniciada ou em preparação, totalizando 349 MW, e 30 usinas outorgadas, mas com construção não iniciada, totalizando 1.478,5 MW de capacidade.
A soma das capacidades nos dois status totaliza 1.827,5 MW de outorgas, aproximadamente 10% dos 18.130 MW de capacidade instalada do segmento existentes até o dia 13 deste mês, distribuída por 653 usinas.
As projeções da Aneel indicam que em 2025 o segmento acrescentou 732 MW em novas usinas, devendo ter alcançado 18,3 mil MW de capacidade instalada, segundo estimativa do especialista Zilmar de Souza (foto), gerente de Bioeletricidade da Única. Estudo da EPE de 2016 estimou que a geração a biomassa no Brasil tem potencial para alcançar 60 mil MW até 2050, sendo 51 mil centralizados e 9 mil distribuídos.
Para Souza, a projeção da EPE para a geração centralizada de biomassa é muito otimista, ao menos considerando o ritmo atual de crescimento e os estímulos à expansão do setor.
“Pelo andar da carruagem, vai ser bem diferente. Se você extrapolar este número de 2025, um ano que foi bom, pelos próximos 25 anos verá que não chegaremos a 40 mil MW”, pondera.
O que estaria impedindo um aumento da geração a biomassa em velocidade maior? “Estamos tendo poucas oportunidades de investimentos pelo setor de biomassa dentro do setor elétrico”, responde Souza, destacando a escassez de leilões voltados para o mercado cativo de energia (ACR) e a escala ainda baixa do mercado livre para compensar esta timidez do ACR.
“Uma esperança nossa para melhorar os números nos próximos anos era participar de forma recorrente e firme nos leilões de reserva de capacidade [LRCaps] que vão acontecer daqui para a frente”, disse, acrescentando que neste sentido “a sinalização dada pelo Ministério [de Minas e Energia] até o momento é muito ruim”.
Souza refere-se ao fato de que para os dois próximos LRCaps, previstos para acontecerem no próximo mês de março, a geração a biomassa ficou de fora, diferentemente do ocorreu nos preparativos para o leilão que aconteceria em junho passado e que foi cancelado.
“Fomos convidados para o leilão que aconteceria em junho de 2025 e cadastramos 7 mil MW. De repente ele foi cancelado e quando foi remarcado para março de 2026, fomos desconvidados. Jogamos 7 mil MW na lata do lixo”, lamentou.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Biomassa e Energia Renovável (ABIB Brasil), Celso Oliveira (foto), destacou os avanços do segmento, incluindo o crescimento nos últimos 20 anos a uma média de 672 MW por ano, mas ressalva que para crescer no ritmo de seu potencial a biomassa precisa de “uma nova legislação, mais ampla e com benefícios aos produtores e consumidores de biomassa como ocorre no mercado global”.
Para Oliveira, com as políticas adequadas para o segmento e com as políticas de descarbonização que vêm sendo implantadas no país será possível que o crescimento cresça a uma velocidade maior nos próximos anos, mas ele entende também que será necessário ampliar as fontes de geração a partir da biomassa.
Segundo o empresário, no Atlas Brasileiro de Bioenergia, desenvolvido pela ABIB Brasil, são listados os fatores de produção e de disponibilidade futura com o potencial de oferta de mais de dois bilhões de toneladas de biomassa, incluindo florestal, madeira, agricultura, agroindustrial, cana-de-açúcar, resíduos da pecuária e agroindústrias, lodo de esgoto e resíduos sólidos urbanos.
Lenha no maior projeto em construção
A maior usina a biomassa atualmente no grupo dos empreendimentos em obras que consta das estatísticas da Aneel é a UTE Cidade do Livro, de 80 MW, um investimento de R$ 700 milhões, segundo dados do grupo IBS Energy, titular do projeto, com financiamento da Finep. Declarada pela Aneel como uma usina alimentada a lenha, seu projeto prevê a possibilidade de alimentação múltipla, incluindo resíduos florestais, bagaço de cana e palha de milho.
Única usina a biomassa entre as vencedoras do leilão de capacidade (LRCap) de 2021, primeiro e único até agora realizado no país, a Cidade do Livro teve seu cronograma de instalação revisto e aprovado pela Aneel no final de novembro, com o adiamento da entrega de energia e potência de 1º de julho de 2026 para 22 de setembro de 2027.
A mudança deveu-se ao reconhecimento de motivo de força maior (excludente de responsabilidade) pelo órgão regulador de 448 dias de atraso das obras em razão da demora - à revelia do empreendedor - de várias etapas legais e regulatórias do processo de outorga.
O engenheiro Luiz Augusto Horta Nogueira (foto), professor titular de Termodinâmica da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e ex-diretor Técnico da ANP, é um entusiasta da biomassa tanto para geração de energia quanto para a produção de combustíveis líquidos, especialmente das fontes florestais, incluindo a lenha, combustível de referência da UTE acima descrita.
Nogueira, que foi cientista visitante na Divisão Florestal da ONU (1977/1988), ressalta que a Finlândia, um dos países mais desenvolvidos da Europa, tem na biomassa a partir de recursos florestais a base da sua produção energética, sem desflorestar, com destaque para o uso da lenha na geração de eletricidade.
Embora pondere que a projeção de 51 GW de capacidade da fonte até 2025 feita pela EPE possa carregar um pouco de “entusiasmo” na avaliação, Horta vê também no Brasil “um amplo espaço” para a expansão da biomassa como fonte de geração elétrica, seja de origem florestal, como a lenha, seja de origem agroindustrial, como o bagaço de cana e o licor negro resultante do processo de produção da celulose a partir do eucalipto.
Para o cientista, “o Brasil dispõe hoje de todas as condições de evoluir no caminho da geração a biomassa”, produzindo energia despachável que pode, inclusive, dar importante contribuição para resolver os problemas de curtailment das fontes renováveis não despacháveis.
UTE Sucuriú terá mais de 400 MW
A segunda maior UTE a biomassa atualmente em construção é a usina São Luiz, de 60 MW, localizada em Medeiros Neto (BA) e movida a bagaço de cana, combustível responsável por mais de 70% da capacidade instalada de geração a biomassa atualmente existente. O projeto pertence ao grupo sucroalcooleiro São Luiz.

Projeto da UTE Cidade do Livro, de 80 MW, em construção em Lençóis Paulista (SP) pelo grupo IBS Energy, vencedor do LRCap de 2021 (Foto: Reprodução)
Completam o grupo dos cinco maiores projetos em construção a UTE Inpasa LEM, de 52,36 MW, em construção pela Inpasa Agroindustrial em Luiz Eduardo Magalhães, também na Bahia, alimentada a lenha. A usina Rio Claro de Goiás, de 38,25 MW, em construção pela Eber Bioenergia e Agricultura. em Montes Claros de Goiás, movida a bagaço de cana, e a UTE Jacarezinho 2, de 25 MW, em construção pela Maringá Energia, em Jacarezinho, Paraná.
No grupo das outorgas com a construção ainda não iniciada, o maior projeto é da UTE Sucuriú, de 432,2 MW, pertencente à Arauco Celulose do Brasil e previsto para instalação no município de Inocêncio (MS). O combustível da usina será o licor negro, segundo colocado entre os combustíveis mais usados para a geração a biomassa no Brasil.
A outorga da UTE Sucuriú foi homologada pela Aneel em fevereiro do ano passado, com prazo de 54 meses para operar, ou seja, até agosto de 2029.
O segundo maior projeto a construir é a UTE Cerona, de 150 MW, da Cerona Companhia de Energia Renovável, de Nova Andradina (MS). A construção da usina, movida a bagaço de cana, está atrasada em relação ao cronograma original que previa entrada em operação em 2015, mas sua outorga continua válida.
O terceiro maior projeto a construir é a Unidade de Recuperação Energética (URE) Lara, de 80 MW, em Mauá (SP). Pertencente ao Grupo Lara, a usina teve sua outorga requerida em 2022, com previsão de investimento de R$ 1,5 bilhão.
Segundo a Aneel, as 653 UTEs a biomassa do Brasil consomem 16 tipos de combustível, liderados pelo bagaço de cana, que responde por 70,06% da potência outorgada, ou 12.701,35 MW, em 432 usinas.
Em segundo lugar vem o licor negro que responde por 20,51% da capacidade total, com 23 usinas que somam 3,718,6 MW.
Em terceiro lugar vêm os resíduos florestais (aparas, galhos, folhagens etc.) com 859 MW espalhados por 76 usinas, 4,74% do total. Em seguida vêm a lenha, com 291,5 MW (1,61%) e biogás resultante de resíduos sólidos urbanos, com 203,3 MW, ou 1,12%. Os outros 11 combustíveis têm menos de 1% da capacidade instalada.
Dos 16 combustíveis da geração a biomassa, seis são de origem florestal, quatro agroindustriais, três de resíduos sólidos urbanos, dois de combustíveis líquidos (óleos vegetais e etanol) e um de resíduos animais.



