Uma visão avançada sobre os sistemas isolados
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Uma visão avançada sobre os sistemas isolados
Ao tempo em que recomenda a redução do ritmo de interligações ao SIN, a EPE examina a viabilidade dos SI com soluções híbridas – térmica, solar e bateria - e até micro reatores nucleares
A sensibilidade ambiental e as distâncias amazônicas entre pequenas comunidades já tinham convencido a EPE que a geração térmica de variadas fontes seguirá sendo vital para garantir a segurança energética da região. O esforço de integração ao SIN tem limites, assim como, no médio prazo, as possibilidades de hibridização com energia solar e baterias, casos nos quais a geração térmica se inclui como complemento e/ou backup.
Desde 2018, quando iniciou o Planejamento dos Sistemas Isolados (Sisol), a EPE registrou avanços significativos na integração de sistemas antes isolados ao SIN e na redução do uso do diesel. No final de 2025, ainda existiam 160 sistemas termelétricos isolados, atendendo a 1,9 milhão de consumidores, incluindo o de Fernando de Noronha, único fora da Região Amazônica.
Em 2018 os sistemas isolados (SI) eram 270, atendendo 3,3 milhões de pessoas. Nos últimos oito anos, a quantidade de sistemas caiu 41% e 1,4 milhão de consumidores foram ligados ao SIN. Mas até pela dinâmica da economia e pelos avanços da eletrificação, a carga caiu apenas 12,6%, de 4.291 GWh para 3.761 GWh.
Outro dado curioso é que, embora a proporção de diesel na geração necessária tenha caído de 97% para 70% no período 2018-2025, o orçamento da CCC quase dobrou, de R$ 5,85 bilhões para R$ 11,46 bilhões, ante um IPCA acumulado de 51%.
Redução nas interligações
O ritmo médio de interligações de sistemas isolados ao SIN nestes oito anos foi de 13,75 por ano. De 2024 para 2025 foram interligados 15 sistemas, incluindo o de Boa Vista, última capital fora do sistema integrado.
A interligação de Boa Vista abarcou outros sete sistemas isolados de Roraima. Outro destaque do ano passado foi a integração de Cruzeiro do Sul, no Acre, cidade de quase 100 mil habitantes.

A comunidade remota da Vila Restauração (AC), de 750 habitantes, consome energia gerada por sistema solar híbrido com baterias instaladas pela Energisa (Foto: Divulgação/Energisa)
No entanto, há fortes evidências de que o ritmo das interligações vai cair bastante nos próximos anos. Os estudos concluídos no final de 2025 preveem apenas 16 novas interligações entre 2026 e 2030, sendo 13 delas no Pará, duas no Amazonas e uma em Roraima.
Embora outros estudos venham sendo feitos pela EPE e possam resultar em novas interligações até o final da década, os sinais são de que a margem de possíveis ganhos, considerando o custo-benefício determinado pelo tamanho do sistema e pelas dificuldades físicas para integrá-lo, está cada vez mais estreita. Tanto que, após cair 55% este ano devido à interligação de Boa Vista, a expectativa é que a carga volte a subir levemente a partir de 2028.
Ligar ao SIN ou otimizar o SI
A EPE considera a interligação de uma localidade economicamente atrativa comparando o custo de implantação da rede com o custo de geração térmica ao longo dos anos.
Quanto menor o tempo de retorno do investimento na rede, maior a atratividade da conexão. E o tempo de retorno será tanto menor quanto mais próxima a localidade estiver de um ponto de conexão e quanto maior for seu consumo de eletricidade.

A cidade de Autazes (AM), de 41 mil habitantes, também ganhou sistema híbrido de 2,1 MW implementado pela VPower em parceria com a Fictor Energia e o Grupo WTT (Foto: Divulgação/Fictor)
Quando estas premissas são transplantadas para a Amazônia, onde estão praticamente todos os sistemas isolados, a EPE se depara com desafios técnicos e econômicos que recomendam cautela, a começar pela baixa densidade da carga, espalhada por uma região geográfica imensa e pouco povoada.
Soma-se o fato de a região possuir vastas áreas protegidas, com restrições ambientais a empreendimentos de transmissão e de distribuição. E mesmo onde não há restrições ambientais, o meio físico, que combina floresta densa com áreas alagadas, grandes rios e carências de acessos, redobra o desafio.
Por conta dessas características, o Pará, estado mais povoado da região e o que possui maior densidade de carga, tem 13 dos seus 16 sistemas isolados previstos para serem conectados ao SIN até 2030.
Desafio no estado do Amazonas
Na outra ponta está o Amazonas, maior estado do país em área e apenas o 13º em população, com cerca de 4,3 milhões de habitantes, 65% dos quais (2,8 milhões) na região metropolitana de Manaus. Seus 92 sistemas isolados atendem 1,47 milhão de pessoas, ou 75% da população brasileira atendida desta forma.
Para o ciclo 2026-2030 estão previstas apenas as interligações dos municípios de Rio Preto da Eva, próximo a Manaus, e Humaitá, no eixo da rodovia BR-319. Nos quatro estudos de viabilidade feitos recentemente pela EPE em toda a região, outros três sistemas amazonenses foram avaliados mais a fundo, os das cidades de Lábrea, Maués e Careiro Castanho.
A empresa de pesquisa concluiu que, Lábrea, no eixo da Transamazônica, a cerca de 250 km de Humaitá, e Maués, a cerca de 270 km de Manaus em linha reta, mas acessível apenas por barco ou avião, são viáveis economicamente de serem interligadas.
Já para Careiro Castanho, cidade de aproximadamente 40 mil habitantes na região metropolitana da capital, a EPE disse que aguarda “proposta de conexão da distribuidora (Manaus Energia) que seja compatível com o montante de carga a ser atendido”.
Careiro é um exemplo típico dos desafios amazônicos. Embora próxima a Manaus, ela está separada da capital pelos 9 km de largura que tem o rio Solimões no local de travessia mais próximo, o mesmo da travessia da BR-319. Dada a largura do rio, sem ilhas no percurso, a travessia por linha aérea é inviável.
E por cabo subterrâneo, que seria, teoricamente, a solução, o alto grau de revolvimento dos leitos dos rios amazônicos, provocado pelas cheias tempestuosas, torna o cabo altamente suscetível a ser desenterrado e rompido por grandes detritos, como troncos de árvores.

Sistema híbrido da Aggreko instalado na comunidade ribeirinha de Caiambé, no distrito de Tefé (AM), inclui 1,4 MW de geração térmica, 373 kWp de potência solar e um sistema de armazenamento com 1 MW (Foto: Divulgação/Aggreko)
Outras cidades amazonenses como Coari e Tefé - respectivamente a primeira e segunda maiores cargas dos atuais sistemas isolados - estão com suas conexões desaconselhadas no curto e médio prazo, por falta de acesso terrestre e por estarem a mais de 300 km em linha reta da conexão do SIN mais próxima.
Coari, próxima às reservas de gás de Urucu, é um dos cinco sistemas isolados abastecidos com gás natural e único com potência instalada superior a 5 MW (38,7 MW). Segundo a EPE, o gás natural é uma boa solução para as localidades na rota de gasodutos existentes.
Uma exigência logística
Para aquelas fora desses eixos, os custos de gasodutos ou estações de regaseificação no caso do transporte em barcaças tornam “limitada” a substituição do diesel por gás natural.
A solução híbrida, combinando combustível fóssil com geração solar e baterias, proposta e bem-sucedida no último leilão de sistemas isolados do ano passado, é, nos padrões tecnológicos atuais, a alternativa mais viável para dar segurança ao abastecimento e inserir os sistemas isolados no esforço de transição energética.
O potencial eólico da região é baixo, segundo a EPE, somente viável em áreas específicas, como o norte de Roraima. A geração hidráulica, dadas as características da região, também é limitada, sendo a PCH Salto Cafesoca, de 7,5 MW, em Oiapoque (AP), a única usina hídrica prevista para entrar em operação no ciclo 2026-2030 no universo dos sistemas isolados.
Com as iniciativas em curso, a EPE projeta que a geração solar, hoje incipiente, passará dos atuais 14,9 MW para 180,4 MW em 2028. E a capacidade de armazenamento em baterias, de 2,7 MWh (2025), será de 300,8 MWh em 2028.
O uso da geração nuclear como alternativa aos sistemas isolados a diesel é também uma das prioridades da agenda da EPE para os próximos meses, segundo informou a agência à Brasil Energia.
A versatilidade dos micro reatores nucleares (SMR) em potência e sua alegada baixa demanda de manutenção tornam esses equipamentos alternativas aplicáveis para substituir a geração a diesel em localidades remotas da Amazônia.
É um caminho longo a ser percorrido e novas tecnologias, como a termonuclear, podem acelerar a descarbonização desse universo que, embora represente apenas 0,32% da carga do SIN, abriga quase 2% da população brasileira.
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