Opinião

A Crise no Oriente Médio e a urgência das baterias

Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e baseada em recursos domésticos abundantes, combinados com o armazenamento de energia, o Brasil tem uma vantagem cada vez mais valiosa em um mundo instável: soberania energética com custos previsíveis.

Por Fabio Lima

Compartilhe Facebook Instagram Twitter Linkedin Whatsapp

Diante da recente escalada dos preços internacionais do petróleo, ultrapassando os US$100/barril, provocada pelo conflito no Oriente Médio, o governo brasileiro editou uma Medida Provisória (MP 1340) para conter o impacto inflacionário do diesel. A política prevê um subsídio de R$0,32 por litro, com impacto fiscal potencial de até R$30 bilhões em 2026. Além disso, foi realizado um leilão para usinas termelétricas, ampliando ainda mais o uso do recurso. 

A medida é compreensível: o diesel é um insumo central para a economia. Mas ela também expõe uma fragilidade estrutural. Choques internacionais em combustíveis fósseis continuam sendo rapidamente transmitidos para o Brasil, exigindo respostas fiscais emergenciais. 

Esse problema não se limita ao transporte. O país também está aumentando sua exposição ao petróleo e ao gás na própria formação do preço da eletricidade. Na semana passada foram contratadas 17,5 GW de usinas termoelétricas, sendo 500 MW à diesel, para garantir capacidade ao sistema elétrico. 

A decisão tem lógica operacional, mas revela um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o Brasil mobiliza bilhões para amortecer os efeitos da volatilidade dos combustíveis fósseis, avança na contratação de geração elétrica dependente dessas mesmas cadeias globais. 

Essa escolha contrasta com uma vantagem estratégica rara do país: uma matriz elétrica majoritariamente renovável e baseada em recursos domésticos abundantes — sol, vento e água. Quando combinadas ao armazenamento de energia, essas fontes permitem algo cada vez mais valioso em um mundo instável: soberania energética com custos previsíveis. 

O problema é que o Brasil ainda desperdiça parte dessa energia limpa. Em 2025, episódios de curtailment (redução ou corte de energia) chegaram a cerca de 20% do potencial de geração em determinados momentos, com perdas estimadas em aproximadamente R$6,5 bilhões. 

O armazenamento em baterias resolve exatamente esse descompasso. Ao guardar energia quando há excesso e liberá-la quando o sistema precisa de potência ou flexibilidade, as baterias reduzem desperdícios, aumentam a confiabilidade da rede e ampliam o aproveitamento das renováveis. 

Há também um aspecto econômico relevante. Diferentemente das térmicas, o armazenamento não depende de combustíveis e, portanto, não possui custo variável sujeito à volatilidade internacional. Uma vez instalado, o sistema opera essencialmente com custos fixos. 

Estudos indicam que a contratação de armazenamento no leilão de reserva de capacidade poderia gerar economia superior a R$3 bilhões por ano apenas na receita fixa contratada, sem considerar os custos adicionais das térmicas quando despachadas, nem o risco futuro associado ao preço do gás. 

Esse ponto é particularmente relevante no momento atual. Enquanto o País realiza o que o próprio Ministério de Minas e Energia chamou de o maior leilão de gás da história, o certame de capacidade voltado ao armazenamento segue com cronograma atrasado. 

No século XX, a soberania energética significava acesso a petróleo e gás. No século XXI, ela passa cada vez mais pela capacidade de transformar recursos renováveis abundantes em energia confiável, estável e economicamente previsível. 

Neste sentido, a Arábia Saudita, maior exportador mundial de petróleo, vem acelerando investimentos em armazenamento em baterias justamente para sustentar sua expansão de renováveis e reduzir riscos sistêmicos do setor elétrico. O país já colocou cerca de 8 GWh de armazenamento em operação e planeja alcançar 22 GWh ainda neste ano, tornando-se um dos maiores mercados globais de baterias para rede elétrica. 

O Brasil possui todas as condições para liderar essa transição. O que falta, neste momento, é senso de urgência. A aceleração do armazenamento - e a realização tempestiva do leilão de capacidade que pode viabilizá-lo - é um passo essencial nessa direção.

Outros Artigos