O problema dos pagamentos de petróleo por trás da Guerra no Irã

Opinião

A equação dos pagamentos de petróleo por trás da Guerra no Irã

A dinâmica não é tão simples como o senso comum imagina. As transações de petróleo entre China e Irã não espelham os fluxos do balanço de pagamentos

Por Osmani Pontes

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Na virada de 2025 para 2026 a crise no Irã e seus impactos nos preços do petróleo começaram a chamar atenção do mundo. A inflação no país em 2025 havia sido de 35%, sendo de 45% ao mês só em dezembro, quando anualizou a 52%. A taxa de câmbio do rial depreciou mais de 60% denotando um típico caso de hiperinflação. As reservas do Banco Central rapidamente se esgotaram, já que o país operara um sistema múltiplo de câmbio com uma taxa fixa para importadores, uma levemente flutuante para exportadores e outra paralela mais fortemente depreciada.

Diante desse cenário, o BC do Irã optou pela unificação das taxas que convergiram para a mais alta, desencadeando nova onda inflacionária e desabastecimento por conta da abrupta redução das importações. Um argumento usual entre analistas e economistas apontava para um clássico choque de balanço de pagamentos devido à redução das importações chinesas do petróleo iraniano que estariam temendo sanções ocidentais.

No entanto, a dinâmica não é tão simples como o senso comum imagina e as transações de petróleo entre China e Irã não espelham os fluxos do balanço de pagamentos, não determinando diretamente os movimentos na taxa de câmbio.

É importante destrinchar a dinâmica entre Irã e China para mensurarmos quais possíveis cenários para o preço do petróleo que depende menos das tensões correntes do que parece.

Atualmente, cerca de 1,5 milhão de barris de petróleo por dia saem do Irã rumo às refinarias teapots de Shandong. São transportados pela frota negra iraniana que faz a entrega no esquema navio a navio. Essas refinarias operam sob margens mínimas determinadas por reguladores que observam critérios técnicos de capacidade instalada e metas ambientais.

Os barris são etiquetados como originários do Omã, mais baratos, e há um ganha-ganha em que os chineses pagam menos e os iranianos vendem um óleo que não teria outra demanda.

O pagamento também não é convencional. As refinarias depositam o valor da compra em renminbi na Chuxin, a câmara de compensações do governo chinês, e o recurso é acessado pelas estatais de construção civil chinesas que, em troca, promovem grandes obras de infraestrutura no Irã nos setores de energia, transporte e construção civil, garantindo desenvolvimento ao regime dos aiatolás.

Esse modelo está sob risco, em primeiro lugar porque as estatais chinesas acessam contratos de seguro junto à Sinosure, a estatal chinesa de seguros, que por sua vez faz o resseguro nos mercados de seguros da Europa, sujeitos às sanções americanas.

Mas antes mesmo de essa possibilidade se configurar um risco real, o ponto central da questão reside no próprio setor de petróleo.

Isso porque as refinarias chinesas já atingiram o limite anual de 8 milhões de barris necessários para abastecer a demanda em 2026 e há cerca de 200 milhões de barris à deriva no Mar da China meridional aguardando destino em navios que representam 60% da frota clandestina do Irã. Os últimos barris vendidos já sofreram desconto bem maior que àqueles etiquetados como do Omã.

Caso esse contingente de barris volte ao mercado físico negociado no Oriente Médio, pode haver uma pressão baixista nos preços do petróleo a nível global que compensaria, ao menos em parte, a aceleração corrente de preços. Assim, um drive relevante para o preço do petróleo, sobretudo na ponderação da tensão bélica entre EUA e Irã, é o destino do petróleo iraniano se despejado no mercado.

Esse quadro se relaciona com outro ponto que merece observação e também diz respeito às formas de pagamento do petróleo entre nações asiáticas, tendo como centralidade a Rússia e a China.

Nesse contexto, a busca de receitas compensatórias por parte do Irã encontrou na cobrança de pedágio sobre navios que passam pelo Estreito de Ormuz uma solução. Esse pagamento é feito basicamente em yuan, reforçando o domínio da moeda chinesa no comércio de energia regional. A taxa varia de 1 a 2 yuans por barril.

A tendência de uso da moeda chinesa em negócios de petróleo ganhou tração após a guerra da Ucrânia e o posterior banimento da Rússia do SWIFT, o sistema de pagamentos internacionais em dólar. Recentemente, plataformas concorrentes denominadas em yuan ganharam força como a mBridge (tendo como membro a Arábia Saudita) e a CIPS, controlada por Pequim.

A estrutura que garante o funcionamento desse mecanismo é a linha de swaps de moedas entre Rússia e China que já vigora há 12 anos. Por esse sistema, empresas chinesas compram de empresas russas pagando em rublos que são oferecidos pelo banco central de Pequim.

Essa oferta também serve para chineses pagarem os juros aos russos que assim também compram de empresas chinesas usando yuans acessados pelo BC russo e oferecidos ao público. Não há necessidade da Rússia reter dólares tampouco buscar dólares sob o risco de depreciar sua moeda.

Essa dinâmica vem enfraquecendo o padrão petrodólar de meados dos anos 70 e que vigora desde o fim do padrão ouro dólar. É por isso que a moeda americana vem experimentando acentuada depreciação a despeito da não resolução da guerra e do aumento da aversão ao risco global, elementos que em geral favoreceriam o dólar.

Isso não quer dizer que haverá imediata substituição do dólar como moeda de pagamento universal porque o déficit americano com o resto do mundo é substancial, o que inunda as economias de dólar que são reinvestidos nos EUA sob a forma de títulos e ações americanas.

Abandonar o dólar significaria renunciar ativos que são detidos por todas as economias do mundo. O movimento destacado indica, no entanto que o mercado de petróleo e gás vem sendo o principal motor por trás de um mudança gradual nas preferências pela liquidez em distintas moedas, em detrimento do dólar, que pode ter impactos maiores a longo prazo.

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