A Europa volta a olhar para o Petróleo: debate encerrado reaberto

Opinião

A Europa volta a olhar para o Petróleo e reabre o debate

Com as recentes mudanças no cenário global, a UE estabeleceu como meta estratégica eliminar a dependência dos combustíveis fósseis russos até 2027 e a discussão sobre a exploração no Ártico, na Guiana Francesa e na Costa Africana só aumentam

Por Wagner Victer

Compartilhe Facebook Instagram Twitter Linkedin Whatsapp

A recente declaração de Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia (IEA), sugerindo que a União Europeia (EU) deveria reconsiderar sua oposição à exploração de petróleo e gás em suas fronteiras, inclusive no Ártico, marca uma mudança de tom significativa no debate energético global. Durante um evento em Bruxelas, Birol não mediu palavras ao defender a importância de cada gota de combustível, em especial o norueguês, classificando o país como um parceiro indispensável, ou seja, um fornecedor estável que não utilizaria a energia como uma eventual moeda de chantagem geopolítica.

Esta manifestação surge no momento em que a UE reavalia sua postura rígida contra novas perfurações em regiões como o Mar do Norte e no próprio Ártico. O que antes era uma questão fechada por imperativos ambientais, agora enfrenta o choque de realidade de um continente que precisa, acima de tudo, garantir que “suas luzes continuem acesas”.

Nesse sentido, movimentos já começam a surgir com a possibilidade da autorização legal, pela França,  para exploração de petróleo na Guiana Francesa e o aumento da atenção de empresas petrolíferas europeias em atividades exploratórias na Costa Africana.

A estratégia europeia sobre restrições à região do  Ártico foi desenhada em tempos mais tranquilos. Em 2021, quando a moratória foi defendida, o foco absoluto eram as metas climáticas e a descarbonização. Contudo, o cenário global mudou drasticamente de lá para cá o e o tabuleiro geopolítico sofreu fortes transformações, em especial com as fortes posições do Governo dos EUA.

A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 implodiu a confiança no mercado energético europeu e as tensões crescentes no Oriente Médio apenas elevaram a volatilidade e os custos. Frente a esse cenário, a Europa estabeleceu como meta estratégica eliminar a dependência dos combustíveis fósseis russos até 2027.

Nesse jogo de xadrez, a Noruega, em especial, deixou de ser apenas um vizinho estratégico para se tornar o pilar central da segurança energética do continente, já que os movimentos pelo lado do Reino Unido, no mesmo Mar do Norte, não apontam a mesma dinâmica para a retomada, enquanto sua indústria do petróleo agoniza, depois de décadas sendo construída. Aliás essa decadência pude constatar em minha última visita a Aberdeen, em 2025, por ocasião do evento Europe Offshore.

Embora não integre a União Europeia, a Noruega é hoje o maior fornecedor de gás natural do continente. Mas há um entrave técnico e econômico: muitos dos campos produtores noruegueses já atingiram o ápice e caminham para o declínio natural. Sem novos investimentos e novas fronteiras exploratórias, a produção do país corre o risco de cair significativamente na próxima década, a própria alimentação do seu Fundo Soberano e os negócios.

A própria indústria petrolífera norueguesa, com a Equinor sucessora da Statoil a frente, alerta que é preciso ir além das áreas maduras para sustentar a atividade. E o ministro das Finanças norueguês ecoou esse sentimento em Bruxelas, ao argumentar que, embora a consciência ambiental seja um dever, a proibição cega à exploração na Região do Ártico ignora as limitações físicas da oferta e a realidade estratégica do Continente Europeu.

A fala de Faith Birol pela IEA não é, portanto isolada e reflete o pensamento atual da agência. Se antes a Transição Energética dominava todas as pautas, agora a Segurança de Suprimento divide o protagonismo. Em um mundo marcado por rupturas logísticas e conflitos, "ter energia disponível" voltou a ser um requisito básico de soberania e, portanto, estratégico.

Além disso, há um dado frequentemente ignorado pelo público geral: o declínio natural dos campos existentes. A IEA aponta que uma fatia gigantesca do investimento global hoje serve apenas para "correr no mesmo lugar", isto é, compensar a queda natural da produção dos campos que já operam.

Assim, defender a retomada de exploração no Mar do Norte e em novas fronteiras no Ártico não é necessariamente uma declaração de guerra contra a Transição, mas um esforço pragmático para garantir uma ponte segura enquanto a economia de baixo carbono amadurece.

Evidentemente a proposta não tem consenso na Europa. Organizações ambientais e grupos focados no clima veem a reabertura desse movimento como um retrocesso perigoso. O argumento principal é que projetos nessas regiões, em especial de novas fronteiras como o Ártico, são complexos e demorados, podendo levar uma década para produzir os primeiros barris. Portanto, ineficazes para resolver as crises de curto prazo. Além disso, o risco ambiental para um ecossistema tão sensível é visto por alguns como inaceitável.

Independentemente do desfecho dessa recente discussão em Bruxelas, uma coisa é clara: o pensamento energético internacional mudou significativamente. A pergunta deixou de ser apenas "como acelerar a transição"? para incluir um desafio muito mais espinhoso: "como garantir estabilidade enquanto a transição acontece"?

Para países produtores, inclusive o Brasil, o mercado está mudando o critério de valorização. Não basta ter recursos; é preciso oferecer confiabilidade institucional e estabilidade política.

A fala de Fatih Birol é, em última análise, um convite ao realismo. Ela nos lembra que, nas próximas décadas, o maior sucesso dos governos não será apenas descarbonizar a matriz, mas equilibrar essa jornada com a necessidade vital de manter o mundo em movimento e em especial, acelerar a exploração de novas fronteiras como as Bacias da Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas.

A exploração em novas regiões, para garantir uma fonte de suprimento seguro e estável para o Brasil, é também percebida dessa forma por outros países não só da Europa, mas para a própria China.

Investidores mantem nossa indústria de bens e serviços ativa, gerando renda, tecnologia e empregos no Brasil e ainda contribuindo para o clima. Afinal, a produção de petróleo no país tem carbono associado menor que em muitos países produtores.

Outros Artigos