Expectativas sobre o mercado de O&G no segundo semestre
Opinião
Expectativas sobre o mercado de O&G no segundo semestre
Novos elementos podem até alterar a composição dos fatores explicativos na dinâmica esperada nesta breve análise, mas não o resultado em si para o cenário de financiamentos do setor
Ano passado, esta coluna tratou dos efeitos da política econômica do governo Trump sobre os preços e o financiamento do setor de oil and gas a nível global. Foram mostrados os impactos de curto prazo, com o alerta de que o limiar de curto para médio prazo em investimentos é bastante difuso para precisarmos quando se encerra um e quando começa o outro.
Mas alguns indicadores de mercado, sobretudo as sondagens de sentimento do produtor, apontam que pode haver um marco simbólico ultrapassado pouco após o primeiro ano completo de Trump na Casa Branca.
Sendo assim, recapitulando o esboçado aqui ano passado, podemos assumir que no primeiro ano a política de Trump atuou na depreciação do dólar diante das demais moedas globais. Essa queda na monta de 10% no ano foi medida pelo indicador DXY, uma cesta de cotações de moedas fortes diante do dólar americano.
Isso ocorreu, pois a despeito do esperado em momentos de aumento do risco, o mercado entendeu que este era o objetivo de Trump, enfraquecer a moeda e estimular o aumento de exportações e a redução de importações.
Na prática, o movimento se deu pela percepção de que o efeito imediato era uma elevação da inflação americana que ensejaria juros de longo prazo mais altos e perda nas posições compradas em títulos da dívida pública americana. Essa configuração levou à saída e desmonte dessas posições trazendo a subjacente venda de dólar a nível internacional.
Já pelas balanças comerciais dos parceiros dos EUA notou-se apreciação das moedas locais frente ao dólar já que as retaliações, em geral por reciprocidade, contiveram as importações de produtos americanos atuando na apreciação cambial de cada país.
Para a commodity mais negociada em dólar no mercado internacional - o barril de petróleo Brent - o efeito tenderia a ser positivo, já que quedas do dólar elevam o valor real do produto. Mas esse efeito ao longo do ano passado não se verificou no preço do Brent, que em média mensal acumulou queda de 20%, de 79 dólares em janeiro de 2025 para 63 dólares em dezembro. O preço médio foi de 69 dólares, o menor desde a pandemia, mesmo considerando a inflação no período.
Dois fatores explicaram esse comportamento. O primeiro, o excesso de oferta global, notadamente a expansão dos estoques de petróleo bruto na China. O segundo, pelo lado da demanda, a redução da atividade econômica global, muito na esteira do enfraquecimento do livre comércio promovido por Trump. Sendo assim, não houve estímulos para aumentos de investimentos no setor por conta da dinâmica desfavorável de oferta e demanda que se refletiu nos preços.
Para o segundo semestre de 2026, há novos elementos que podem alterar a composição dos fatores explicativos da dinâmica esperada, mas não o resultado em si para o financiamento no setor.
Por um lado, podemos retomar o ponto de passagem do curto para o médio prazo da política de Trump. Isso porque a tendência é que com a estabilização da taxa de juros dos EUA e da inflação em patamares mais elevados, um chamado equilíbrio ruim, as possibilidades de ganhos em juros nos EUA sobem, o que deve apreciar o dólar global que devolveria ao menos parte das perdas de 2025. Esse quadro tende a ser ainda mais altista com o choque do petróleo e no mercado de crédito privado.
Como dito, esse movimento tenderia a derrubar o preço do petróleo, algo que não acontecerá já que os efeitos macro foram neutralizados pela guerra do Irã.
Inclusive argumentava-se que esse quadro poderia mudar se a dinâmica do mercado mais que compensasse o efeito dólar, ou seja, agisse para a alta dos preços que a longo prazo poderia permitir o aumento de receitas das empresas do setor, o que mitigaria os riscos de crédito para os bancos.
De alguma forma, a dinâmica do mercado acabou atuando para uma substancial alta no preço do petróleo, mas de uma via que não favorece o crédito bancário ao setor de óleo e gás que já convive com alto endividamento das empresas e bancos comedidos na oferta de crédito. Isso porque a alta em curso é fruto de um choque geopolítico e não uma mudança favorável de fundamentos.



