Petróleo venezuelano e ajuste macroeconômico no cálculo de Trump
Opinião
Petróleo venezuelano e ajuste macroeconômico no cálculo de Trump
Além da Chevron, mais duas companhias podem ter custos relativos menores: a ExxonMobil, que já tem conhecimento prévio dos campos no país, e a Halliburton
O leitor não precisa de muitos argumentos para se convencer de que a única motivação da invasão americana na Venezuela e do sequestro do ditador Maduro foi o interesse pelo petróleo. Isso porque a explicação foi dada pelo próprio Trump na primeira entrevista em Mar-a-Lago após a operação. Logicamente, a Casa Branca precisava de uma fundamentação "jurídica" e encontrou na questão do narcotráfico esse ponto. Dito isso, sem mais delongas vamos ao que interessa.
O cálculo econômico de Trump
Desde seu primeiro mandato, Donald Trump segue a lógica mercantilista na gestão macroeconômica, a despeito de seu abandono há pelo menos um século na política normativa. Para ele, a obtenção de superávits comerciais é fator causal de crescimento econômico, entendimento derivado de uma confusão conceitual que alguns economistas fazem da leitura da decomposição das contas do balanço de pagamentos, problema que não vem ao caso neste texto. É esse o objetivo básico que faz Trump desejar tão fortemente um dólar barato e desvalorizado.
Esse mesmo arranjo permite, na lógica das famílias dos modelos Mundell-Fleming dos anos 1970, a expansão da política fiscal sem efeitos na taxa de juros (que precisa ficar baixa para não apreciar o câmbio), já que nesse arcabouço teórico, a política fiscal é ineficaz sob regime de câmbio flutuante sobre a taxa de juros (e também sobre a renda, o que Trump parece desprezar).
Por que o Petróleo?
Nessa equação, no afã de aumentar seu superávit comercial, o petróleo surge como variável de ajuste, ideia expressada na campanha presidencial e tema desta coluna pela frase "drill, baby drill". O suporte vem da vasta experiência e poder do lobby da indústria de óleo, gás e carvão ao longo do século XX e que atingiu seu ápice no atual mandato presidencial.
Segundo relatório conjunto da Public Citizen e da Revolving Door Project, há mais de 5.300 lobistas americanos credenciados com livre participação em eventos climáticos, mais de 40 nomeações no primeiro ano do atual governo Trump para a administração pública federal direta, que inclui a Casa Branca e mais oito agências federais, tudo relacionado às polpudas doações de campanha do atual presidente que somaram 96 milhões de dólares em 2024.
Onde entra Venezuela na equação?
Tendo esse quadro em vista e a importância de criar zonas de influência que afastem a China da América Latina, a Venezuela surge como a solução ideal (a operação foi batizada como "resolução absoluta").
Isso porque os EUA apesar de serem o maior produtor mundial de petróleo, produzem óleo bruto leve e não o pesado e viscoso. Como suas refinarias são adaptadas para processar o segundo tipo de óleo, o país precisa importar esse tipo de petróleo do Canadá e do México (justamente vizinhos com os quais os EUA querem expandir seus saldos em balanço de pagamentos) e exportar o óleo que produz que possui baixo valor agregado diante do óleo importado.
Como reequipar as refinarias americanas geraria um imenso custo de investimentos, buscar o óleo venezuelano, pesado e viscoso, pode ser mais viável. A Venezuela é dona da maior reserva de petróleo do planeta (17%), mas produz apenas 1% do petróleo mundial. Desproporção fruto de anos de péssima gestão dos governos Chavez e Maduro. O argumento de que se trata de recuperação do que foi "roubado" também ajuda.
A Venezuela nacionalizou sua cadeia de óleo e gás em meados dos anos 1970, tendo nos anos 2000 assumido por meio da PDVSA a operação na cadeia. Na ocasião, Chávez reteve 60% das participações das empresas do setor, aumentou impostos e royalties levando à saída da ExxonMobil e da Conoco-Phillips do país. Apenas a Chevron aceitou as condições chavistas.
Nesse contexto surge a figura de Delcy Rodríguez que ascende na hierarquia chavista ao reorganizar a falida indústria de petróleo no país após a queda dos preços da commodity. A pedido de Maduro, Rodríguez, à frente do Ministério dos Hidrocarbonetos em 2024, substituiu o modelo socialista pelo modelo capitalista, ambos falhos e corruptos. Mas os efeitos econômicos foram positivos. Quem ganhou nessa dinâmica foi a Chevron que negociou diretamente com Rodríguez.
O governo venezuelano tinha uma dívida com a empresa que propôs exportar o petróleo venezuelano e abater da dívida a receita de venda. A resistência da Venezuela durou pouco. Quando Trump assume, sabendo do andamento das negociações, proíbe o pagamento em dinheiro da Chevron para a Venezuela que ficaria estrangulada sem recursos e aceita a proposta. O arranjo saiu melhor que o esperado para a Venezuela, a Chevron pagava um percentual em barris para a PDVSA.
Na esteira do lobby Trump, por meio de alguns decretos e do One Big Beautiful Act, renova as dezenas de licenças especiais para a Chevron operar na Venezuela, enquanto durar o embargo, permitindo que o óleo venezuelano seja vendido para as refinarias americanas. A Chevron, que tinha somente um campo offshore e algumas joint-ventures, passou a responder por 20% do total da produção no país.
O que esperar do futuro?
Com a administração do petróleo sob controle da Casa Branca, os EUA afastam a China de obter o óleo da melhor qualidade e garantem bons negócios para a Chevron que não por outro motivo viu valorização de 7,3% de suas ações na bolsa de NY (CHVX34). Mas os desafios são grandes.
A cadeia venezuelana está sucateada, os custos de recuperação são elevados e de longa maturidade e a instabilidade política no país afasta investidores e bancos que financiam os projetos. Além disso, a oferta global de petróleo aumenta e os preços futuros caem, reter contratos futuros de petróleo não é uma demanda atraente.
Nesse quadro, além da Chevron, mais duas companhias podem ter custos relativos menores. A ExxonMobil, que já tem conhecimento prévio dos campos no país. E a Halliburton, por ser a maior fornecedora de serviços para a Conoco Phillips, que enfrenta problemas de caixa e converteu dívidas com a Halliburton em cessão de direitos exploratórios nas bacias do Mar do Norte.
O modelo de negócios pode ser utilizado na Venezuela num jogo de ganha-ganha em que a Conoco Phillips reduz dívidas e a Halliburton consolida seus projetos de expansão em campos que não costumam atrair as concorrentes, mais seletivas no cenário atual. A vantagem da empresa é o uso da tecnologia Octiv de fraturamento digital que aumenta produtividade e reduz custos fixos.
Os efeitos expectacionais trazem forte retroalimentação. A longo prazo, o aumento abrupto da oferta de petróleo tende a depreciar ainda mais os preços, fortalecer o dólar e fazer a produção depender sensivelmente de uma demanda global que pode ser cadente quando Trump não estiver mais em cena e voltarem as restrições aos combustíveis fósseis.



