Perpectivas para o GNL em um mercado em transformação

Opinião

Perspectivas para o GNL em um mercado em transformação

Apesar da expectativa de excedente de capacidade de cerca de 90 mtpa até 2030, a demanda latente poderia chegar a até 100 mtpa se os preços caírem para US$ 6–8/MMBTU, aproveitando infraestrutura existente

Por Ieda Gomes

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O gás natural e o GNL continuam a exercer um papel pivotal na transição energética global, conforme destacado por líderes da indústria e por desenvolvimentos recentes do mercado. O investimento global em transição energética atingiu um recorde de US$ 2,3 trilhões em 2025 (aumento de 8% em relação a 2024), impulsionado principalmente por tecnologias maduras como eletrificação do transporte, energias renováveis e redes elétricas.

Mas os combustíveis fósseis ainda atraem capital significativo (US$ 1,19 trilhão em suprimento de combustiveis fósseis versus US$ 1,3 trilhão em suprimento de energia limpa). Os investimentos acumulados de 2020–2025 em  suprimento de energia limpa e combustíveis fósseis, são semelhantes, da ordem de US$ 6,3 trilhões.

Essa transição em múltiplas velocidades reforça que o gás natural, especialmente o GNL, segue atuando como combustível essencial para a segurança energética, acessibilidade e confiabilidade, em meio ao aumento da eletrificação da economia em diversas regiões.

Executivos da indústria enfatizam a natureza despachável do gás natural e GNL, que complementam as renováveis intermitentes, e seu perfil de emissões mais baixas em comparação com carvão ou óleo.

A indústria se prepara para um potencial excesso de oferta de GNL até 2030, com projeções de capacidade excedente de cerca de 90 milhões de toneladas/ano (mtpa). Mercados asiáticos e emergentes, juntamente com novas aplicações como bunkering marítimo (onde a demanda por GNL pode dobrar ou mais até 2030) e transporte, são vistos como absorvedores chave de suprimentos adicionais.

Mercados emergentes enfrentam dilemas de infraestrutura: o GNL penetra mais facilmente onde já existe infraestrutura de gás e a produção doméstica está diminuindo, mas nova infraestrutura exige mecanismos de financiamento essenciais.

No entanto, persistem desafios. A destruição irreversível de partes da demanda pode surgir da volatilidade e de preços muito altos, levando a mudanças estruturais em que consumidores industriais investem em alternativas como eletricidade, carvão ou lenha.

Os preços em hubs europeus e asiáticos permanecem elevados (US$ 11-15/MMBtu) em comparação aos níveis pré-Guerra da Ucrânia, tornando o GNL inacessível em muitos mercados emergentes.

Compradores priorizam flexibilidade - cláusulas de destino, opcionalidade de volume, ajustabilidade de contratos - e uma mistura de suprimentos de curto e longo prazo para diversificar riscos geopolíticos, além de transparência sobre as emissões. No caso do Brasil, a baixa taxa de utilização dos terminais de GNL (5-15%), adiciona custos adicionais.

Apesar da expectativa de excedente de capacidade cerca de 90 mtpa até 2030, a demanda latente poderia chegar a até 100 mtpa - se os preços caírem para US$ 6–8/MMBTU - aproveitando infraestrutura existente.

A indústria foca intensamente na redução de emissões de metano e na descarbonização de operações por meio de monitoramento (ex.: drones e sensores), sequestro e reinjeção de CO₂ e registros credíveis de emissões, enquanto aguarda mandatos firmes para combustíveis verdes.  .

A Europa enfrenta críticas por regulamentação excessiva, como a a diretriz de due diligence (CSDDD), que impõe ônus extraterritoriais a fornecedores não europeus e poderia elevar preços para os consumidores da região, via repasse de custos.

A crescente demanda por energia de data centers adiciona complexidade. Projeções indicam adicional de 950 a 1.800 TWh até 2030, inicialmente direcionadas a renováveis e nuclear, mas agora empurrando para fontes despacháveis como gás natural devido a atrasos em conexões de rede e desafios de intermitência das renováveis. Hyperscalers exploram turbinas a gás behind-the-meter, embora prazos longos (frequentemente além de 2029) e escassez de turbinas criem gargalos.

No Reino Unido, o debate energético mudou para segurança e acessibilidade, com altos preços prejudicando o crescimento. Energia despachável de baixo carbono como CCUS enfrenta atrasos por altos capex, lacunas na cadeia de suprimentos e infraestrutura. Apesar desses desafios, cinco grandes projetos de CCUS em clusters industriais no Reino Unido atingiram FID em 2025.

Perspectivas de empresas reforçam o papel do GNL: Shell e TotalEnergies destacam a necessidade de criação de novas aplicações e ressaltam o crescimento global na demanda de energia de +50% até 2050, com os EUA apostando em gás para data centers e IA.

A Engie vê moléculas como o biometano como essenciais a longo prazo. Outras empresas mencionam o fechamento de refinarias na Europa impactando a segurança de suprimento e o progresso lento em amônia verde, e um maior interesse por metanol no setor marítimo. E o investimento em hidrogênio de baixo carbono caiu para US$ 7,3 bilhões em 2025, muito aquém das projeções iniciais.

No geral, o GNL preenche a lacuna em uma transição de múltiplas velocidades: tecnologias limpas maduras escalam rapidamente, enquanto as emergentes enfrentam obstáculos.

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