Guerras, consequências e respostas

Opinião

Guerras, consequências e respostas

Mesmo os países que possuem reservas e exportam petróleo pagam mais caro pela commodity num contexto de escassez. Por isso, o Brasil precisa se industrializar e escapar da armadilha da Renda Média como mero exportador de matérias primas

Por Telmo Ghiorzi

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"A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam". A frase é de origem controversa, mas teria sido proferida por Erich Hartmann (1922-1993), piloto de caça alemão na Segunda Guerra Mundial. Há frases similares, proferidas por outras pessoas em outros contextos. Mas a essência é a mesma e, infelizmente, ela encerra verdade cruel.

Apesar das novas tecnologias e armamentos, nada mudou na essência. E é preciso acrescentar que, para além de “jovens que não se conhecem e se matam”, há pessoas, usualmente parte expressiva, que sofrem as piores consequências das guerras; são mortos. Numa guerra não há apenas dois lados. Há também os lados de quem não quer sequer guerrear, muito menos matar outras pessoas. E outros tantos lados, de populações civis inteiras que se dividem em apoios e em críticas aos conflitos armados.

É no mínimo controverso, para não dizer impossível, afirmar que uma guerra pode produzir algum efeito positivo. Mas não há dúvida alguma de que guerras têm consequências. E que elas estimulam esforços para evitar as próximas guerras e reduzir seus efeitos.

A guerra da Ucrânia e a guerra EUA-Israel contra o Irã não requerem muitos esforços para se constatar que os fatores que as causaram permanecerão presentes no futuro. O que implica concluir que estas e outras guerras podem eclodir novamente a qualquer momento, mesmo que haja cessar-fogo no futuro próximo.

A busca pela posse de recursos em geral, e do petróleo em particular, têm presença e importância nestas guerras atuais. Não há dúvida de que esta commodity é diferente das outras. Sua importância econômica e social, em razão de sua aplicação como fonte de energia e em diversos produtos, como remédios, tecidos, dispositivos eletrônicos, dentre muitos outros, transforma a busca por novas reservas em palco de alianças e conflitos.

O Brasil está geograficamente distante destas guerras e conta com sobra do principal recurso econômico afetado por ela, o petróleo. Somos autossuficientes há cerca de 20 anos. Mas eventos similares, como os que ocorreram em 1973 e 1979, também no Oriente Médio, causaram crises graves e mudaram a história econômica do Brasil.

Há duas grandes ações que o Brasil pode e deve adotar para fazer frente a um contexto que teima em permanecer estático.

A primeira delas é de caráter aritmético, de balanço contábil de energia. O Brasil precisa assegurar a continuidade e o aumento dos esforços para descobrir novas reservas de petróleo. Ao ritmo de hoje, em cerca de 10 anos, o Brasil pode se tornar um importador de petróleo, o que implicaria redução da atividade econômica e efeitos deletérios rápidos sobre indicadores socioeconômicos.

O outro desafio é de caráter estratégico: o Brasil precisa tornar-se um país industrializado, escapar da armadilha da Renda Média, avançar em sua autonomia tecnológica e superar sua dinâmica econômica primário-exportadora. Num contexto de escassez, mesmo quem dispõe de petróleo enfrenta preços mais altos da commodity. E, nesse caso, seria necessário que a população brasileira tivesse renda suficiente para comprar energia e outros produtos derivados do petróleo, mesmo que a preços mais altos.

Não há alternativa para isso que não seja a industrialização. Ou seja, empresas locais capazes de atender o mercado local e internacional no fornecimento de bens e serviços de alta sofisticação tecnológica e, portanto, altas receitas e salários. Isso vale para a cadeia produtiva do petróleo, tema permanente desta coluna, mas também de todas as outras indústrias do Brasil, quer estejam ou não associadas a alguma de nossas commodities.

Nunca foi missão trivial, mas as guerras de agora tornam ainda mais evidente o imperativo desta estratégia. Não basta termos recursos naturais. Os indicadores socioeconômicos de todos os países industrializados estão em patamar bem superior aos brasileiros. É para esta posição que o Brasil precisa rumar.

 

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