Cautela em excesso encarece a conta de luz

Opinião

Cautela em excesso encarece a conta de luz

Na operação do sistema, é necessário adotar uma visão integrada, que considere a segurança energética sob a ótica do consumidor, aquele que, no fim das contas, arca com todos os custos

Por Luiz Barata

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A discussão sobre o nível de risco no Setor Elétrico voltou ao centro do debate. O problema surge quando a busca por segurança ultrapassa o equilíbrio e passa a representar um excesso. Pior: quando esse excesso não apenas amplia outros riscos, mas também recai diretamente sobre o consumidor. É justamente esse o ponto que a Frente Nacional dos Consumidores de Energia (FNCE) levanta ao analisar os critérios utilizados no SIN para o acionamento de usinas térmicas em períodos de escassez hídrica, tema recentemente debatido em consulta pública da CCEE.

Minha percepção sobre risco de desabastecimento mudou significativamente quando retornei ao ONS, em 2016, como diretor-geral. Após experiências na presidência do Conselho de Administração da CCEE e na Secretaria Executiva do Ministério de Minas e Energia (MME), ficou claro que não é mais possível avaliar a operação do sistema de forma isolada.

É necessário adotar uma visão integrada, que considere a segurança energética sob a ótica do consumidor, aquele que, no fim das contas, arca com todos os custos. Desde então, defendo que a aversão ao risco precisa ser calibrada com equilíbrio, pois, em dose errada, o remédio pode se tornar prejudicial.

O funcionamento do sistema elétrico brasileiro ajuda a entender esse desafio. Baseado majoritariamente em hidrelétricas com reservatórios, o sistema utiliza a água como uma espécie de “estoque” de energia. O planejamento busca definir quanto desse recurso deve ser preservado hoje para garantir o abastecimento no futuro. Em cenários de pouca chuva, essa estratégia assegura estabilidade. No entanto, quando há abundância hídrica, reter água em excesso pode gerar ineficiências e custos desnecessários.

Esse planejamento é conduzido pelo ONS por meio de modelos computacionais que orientam o despacho das usinas e a operação da transmissão. Um dos principais instrumentos dessa cadeia é o modelo Newave, que utiliza o indicador de risco conhecido como Conditional Value at Risk (CVaR). Esse parâmetro influencia diretamente o equilíbrio entre a geração hidrelétrica e térmica. Quando calibrado com excesso de cautela, o modelo antecipa decisões e aumenta o acionamento de térmicas, preservando água além do necessário.

O resultado é um efeito em cadeia: elevação dos custos de geração, redução do espaço para fontes renováveis como eólica e solar e aumento do chamado “curtailment” — o desperdício de energia limpa disponível. Além disso, há maior dependência de fontes fósseis e aumento das emissões de gases de efeito estufa, em desacordo com compromissos ambientais. Ou seja, uma decisão técnica excessivamente conservadora pode gerar impactos econômicos, operacionais e ambientais relevantes.

A questão, portanto, não é escolher entre segurança e custo. O desafio está em encontrar o ponto de equilíbrio. Isso exige uma calibragem mais precisa do CVaR, análises que considerem maior diversidade de cenários e, principalmente, uma abordagem sistêmica que leve em conta os efeitos econômicos das decisões operacionais.

Uma analogia simples ajuda a ilustrar. Ao contratar um seguro para um carro, buscamos proteção adequada, mas dentro de um custo viável. Uma cobertura excessivamente ampla pode incluir serviços desnecessários e comprometer o orçamento, faltando recursos para despesas básicas, como combustível. Nesse caso, o veículo estaria altamente protegido, mas seu uso ficaria limitado. Já uma apólice equilibrada oferece segurança suficiente sem comprometer o restante das necessidades.

No setor elétrico, ocorre algo semelhante. Um nível exagerado de prevenção contra o risco de desabastecimento, baseado em maior uso de térmicas, acaba criando novos problemas e elevando custos de forma injustificada. Esse impacto se espalha pela economia, encarecendo produtos, pressionando a inflação e, de forma mais imediata, aumentando a conta de luz.

Diante disso, cabe a reflexão: estamos pagando mais do que o necessário para mitigar um risco que poderia ser controlado a um custo menor? Se a resposta for positiva - e há indícios de que seja -, é fundamental promover ajustes. O equilíbrio entre segurança, eficiência e custo não é apenas desejável, é indispensável para um setor elétrico sustentável.Parte inferior do formulário

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