LRCap: Por que olhar além do preço é essencial?

Opinião

LRCap: Por que olhar além do preço é essencial?

A pergunta que precisa orientar esse debate não é “qual é o menor preço agora”, mas se estamos contratando a capacidade certa para sustentar a transição energética com segurança, estabilidade e previsibilidade

Por Jorge Alcaide

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Com os leilões de capacidade no Brasil, precisamos ampliar o debate. Esses leilões não são apenas mecanismos de contratação de megawatts, mas sim instrumentos estruturais para garantir a confiabilidade do sistema elétrico em um cenário de crescente penetração de fontes renováveis. E essa diferença é fundamental.

Estamos falando de leilões de capacidade (kW), não de energia (kWh). O objetivo central não é contratar o quilowatt-hora mais barato, mas assegurar que a usina esteja pronta para despachar quando o sistema mais precisa, em janelas críticas, sob hidrologia adversa, picos de carga ou queda abrupta de geração renovável. Preço baixo, por si só, não é sinônimo de sistema confiável.

Quando a análise se limita ao menor capex, corre-se o risco de contratar ativos com menor robustez operacional, menor capacidade de resposta e maior exposição a indisponibilidades. No papel, o leilão pode parecer competitivo. Na prática, os custos reaparecem na forma de despacho fora da ordem de mérito, encargos adicionais e medidas emergenciais. No médio prazo, isso encarece o sistema como um todo.

Em um cenário de alta participação de solar e eólica, o desafio não é apenas ter megawatts médios disponíveis. O desafio é ter potência firme nos momentos de estresse do sistema. Por isso, os leilões de capacidade precisam considerar atributos técnicos além da potência instalada:

  • Disponibilidade efetiva em horários críticos;
  • Velocidade de entrada e saída de operação;
  • Capacidade de operar por longos períodos contínuos, se necessário;
  • Integração real com as necessidades operativas do ONS.

Flexibilidade operacional deixa de ser diferencial e passa a ser requisito estrutural, pois é o que transforma capacidade contratada em capacidade útil ao sistema. Em momentos críticos, ativos inflexíveis chegam tarde demais. Usinas com partida lenta não evitam déficit. Já plantas com resposta rápida operam em minutos, estabilizam frequência e tensão e reduzem a necessidade de despacho emergencial - geralmente o mais caro.

Os episódios recentes de curtailment no Nordeste ilustram esse ponto. O sistema não enfrenta apenas falta de energia, mas falta de flexibilidade e capacidade dinâmica de absorção da geração. Em alguns momentos há excesso de renovável e necessidade de corte; em outros, há insuficiência de resposta rápida. Potência sem flexibilidade não garante confiabilidade.

Leilões bem desenhados podem reduzir custos sistêmicos no longo prazo, mesmo que isso não seja evidente em uma análise puramente baseada em preço unitário. Ao contratar a capacidade certa, o sistema reduz:

  • Despachos fora da ordem de mérito;
  • Intervenções emergenciais;
  • Exposição a riscos hidrológicos extremos;
  • Volatilidade tarifária;
  • Soluções improvisadas e de alto custo.

Um leilão aparentemente “mais caro” pode ser, ao longo de 15 anos de contrato, significativamente mais barato para o sistema. A experiência internacional já demonstrou que capacidade não é commodity. Atributos importam. Leilões modernos valorizam flexibilidade, disponibilidade garantida, partidas rápidas, capacidade de despacho contínuo e sinais claros de longo prazo para investimento.

O Brasil tem uma vantagem estratégica: ainda pode planejar antes de enfrentar uma crise estrutural. A pergunta que precisa orientar esse debate não é “qual é o menor preço agora?”. É: estamos contratando a capacidade certa para sustentar a transição energética com segurança, estabilidade e previsibilidade? Os próximos leilões não definirão apenas quem ganha contratos. Eles ajudarão a definir o nível de confiabilidade do sistema elétrico brasileiro na próxima década.

 

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