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Mercado de armazenamento se organiza para crescimento da demanda

O leilão exclusivo para sistemas de armazenamento de energia, esperado para acontecer ainda neste ano, deve ser um divisor de água para o setor. Três especialistas ouvidos pela Brasil Energia avaliam que o certame pode levar a novos modelos e oportunidades de negócios

Por Nelson Valencio

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Sistema de baterias BESS da Moura instalado na UFMG, em parceria com a Cemig (Foto: Divulgação Moura)

O tamanho do leilão é uma das principais preocupações para Markus Vlasits, presidente da Absae, a associação do setor. “Precisamos de um volume que faça diferença para o setor elétrico e que também consiga atrair investidores”. Preço é outro item importante na balança, no entender de Leonardo Carmo, da UCB Power. Para ele, os valores podem atingir um platô por volta de 2026, na faixa de até R$ 800/kWh. E o regramento, segundo Bernardo Nunes, consultor da Deloitte, “será preponderante”.

Vlasits (foto), presidente da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) espera que a Aneel não opte por um leilão “experimental” de cerca de 800 MWh. Ele assegura que o mercado de armazenamento poderia entregar de 15 a 20 GWh de capacidade ao longo dos próximos anos, mas como se trata do primeiro leilão do gênero admite como razoável a colocação de 2 GW de potência para atender uma demanda de quatro horas, resultando em 8 GWh.

O mercado atual de projetos instalados ou em instalação no Brasil está estimado em 900 MWh de capacidade e deverá ultrapassar a faixa de 1 GWh ainda no primeiro semestre, nos cálculos de Vlasits. É um número “tímido” em sua opinião, considerando que em 2024, somente em novos projetos, as tecnologias de BESS* teriam agregado cerca de 170 GWh de capacidade no mundo todo, graças à queda de preço dos sistemas de armazenamento combinada com a flexibilidade oferecida pela tecnologia.

O perfil dos competidores

Entre os empreendedores potenciais, o presidente da Absae lista várias empresas internacionais que já estariam até avaliando terrenos próximos a subestações mais atrativas para a implantação de BESS. De um modo geral, são operadores de transmissão, empresas de geração eólica e solar ou de geração distribuída, que hoje operam blocos de autoconsumo remoto e de geração compartilhada. “Há também agentes do mundo termelétrico, que podem aproveitar a margem de escoamento da usina térmica e instalar um sistema de armazenamento ao lado da subestação a que estão ligados”.

No seu entender, a maior viabilidade financeira são BESS acoplados a usinas solares, sendo que quanto maior o vertimento delas, maior será a sinergia operacional. Mas também aposta em sistemas autônomos, que provavelmente serão alocados no Sul ou Sudeste, mais próximos da carga e funcionando como capacidade despachável a qualquer momento do dia.

Nesse último caso, a estratégia deve priorizar a interligação com subestações também com menor custo de Tust, a tarifa de uso de sistemas de transmissão. A dúvida é qual Tust deverá ser cobrada – se de geração ou de consumo. “Se for de geração, todos os sistemas autônomos devem migrar para o Sul-Sudeste”, diz. “Se a Aneel entender que seria uma Tust de consumo, que não faz sentido, esses sistemas podem migrar para o Centro-Oeste”, diz Vlasits. Para ele, caso o setor traga as baterias autônomas para o Sul-Sudeste, a regulação deverá  estabelecer como sinal locacional a compra da geração.

Oportunidades nos nichos

Além do leilão exclusivo, o presidente da Absae ainda vê outros segmentos de mercado potencial crescente, como as diversas soluções em sistemas isolados ou como complemento de empresas que compram energia no mercado livre: “A migração traz reduções entre 20% e 25% na fatura. O uso de armazenamento pode acrescentar outros 15%, dependendo das condições”.

Ainda segundo o presidente da associação do setor, existe oportunidade para os sistemas de armazenamento crescerem associados à mini e microgeração distribuída (MMGD) e com a interligação nas redes das distribuidoras e em sistemas offgrid. Opinião também compartilhada por Leonardo Lins do Carmo (foto), head de Marketing, Produto e Desenvolvimento de Negócios de Soluções de Armazenamento de Energia da UCB Power.

“Fala-se muito hoje que o mercado de indústria e comércio está muito maduro. Precisávamos de uma redução substancial do custo da bateria e tivemos isso”, diz Leonardo, para quem os custos dos sistemas já caíram 90% desde 2010. Em alguns modelos de baterias, os preços teriam caído pela metade em 2024.

Hoje, na avaliação do especialista da UCB, os custos de fornecimento do kWh de armazenamento oscilam entre R$ 1 mil e R$ 1,5 mil, mas em alguns projetos ele acredita que a precificação poderá cair a R$ 900/kWh, principalmente se o empreendimento envolver soluções híbridas com geradores a diesel. Os valores, na estimativa dele, podem atingir um platô de preços por volta de 2026 com tendência de evoluir para uma faixa de R$ 800/kWh.

Mesmo a área residencial, como condomínios de alto padrão, não estão fora do radar da UCB. Esse mercado de baterias menores é apontado por Vlasits, da Absae, como bastante “nichado”. Para o presidente da associação, os segmentos industrial e comercial devem ser atacados antes, simultaneamente aos mercados de MMGD.

Bernardo Nunes (foto), consultor da Deloitte na área de energia, também se dedica a estudar o potencial de uso de armazenamento de energia no Brasil e tem dado especial atenção ao crescimento da MMGD. As soluções de BESS funcionariam no seu entender como um grande backup do sistema elétrico.

Nunes lembra que o custo dos pequenos sistemas ainda é um desafio, o que poderia ser um limitador para o uso das baterias em grande escala pelos consumidores residenciais. Por outro lado, ele acredita que modelos de prestação de serviço, onde empresas especializadas oferecem a locação de infraestrutura de BESS, podem ser alternativas viáveis para clientes corporativos.

Especialmente para esse nicho, mas também para outros que surgem a cada dia, “a regulação de uso será preponderante”, diz o consultor. A mesma consideração tem Vlasits, quando acompanha as movimentações da Aneel na preparação do leilão. Com base nas sinalizações recentes da agência, Vlasits acredita que as regras do leilão serão estabelecidas até maio para que o leilão possa acontecer ainda neste ano.

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*BESS é a sigla em inglês para Battery Energy Storage System, que significa Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias. 

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