PDE 2035 reforça térmicas como seguro do sistema

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PDE 2035 reforça térmicas como seguro do sistema

Planejamento prevê 19 GW em novas térmicas e modernização de 8,7 GW até 2035 como parte da matriz elétrica, onde a parcela das fontes renováveis aumenta para 86%

Por Marcelo Furtado

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TermoRio, uma das termelétricas que voltam a compor o cenário de demanda a partir de 2026 e 2027 no PDE (Foto: Divulgação/Petrobras)

O planejamento energético federal para a próxima década promete consolidar as usinas termoelétricas como componente estrutural da segurança elétrica brasileira em um sistema cada vez mais dominado por fontes renováveis.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), elaborado pela EPE, projeta uma matriz elétrica com nível de renovabilidade de 86% em 2035 — patamar acima do registrado em 2025, de 83%, e que preserva a liderança brasileira em geração limpa, apesar de ampliar a necessidade de fontes despacháveis para assegurar estabilidade, flexibilidade e potência firme ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Hoje as térmicas já cumprem papel relevante na arquitetura do sistema. Em dezembro de 2025, o país contava com cerca de 20 GW em usinas termelétricas, o equivalente a 8% da capacidade instalada total de 249 GW. No horizonte do PDE 2035, em consulta pública até 14 de março, essa capacidade mais que dobra em termos absolutos, alcançando 45 GW, elevando sua participação para 12% de um sistema projetado em 359 GW.

Embora o sistema como um todo também cresça de forma significativa no período, a expansão térmica mantém trajetória proporcionalmente superior à de outras fontes despacháveis, reforçando sua centralidade no planejamento. A expansão confirma que, mesmo em uma matriz amplamente renovável, a capacidade térmica será ampliada como principal fonte despachável de sustentação da confiabilidade do sistema.

Potência firme

A projeção do PDE para chegar ao parque térmico de aproximadamente 45 GW em 2035, com o acréscimo de 25 GW, se funda em quase 19 GW de novas usinas a gás natural — sendo 11.711 MW em unidades flexíveis e 7.246 MW em inflexíveis. As térmicas a biomassa acrescentam cerca de 3,7 GW, enquanto projetos a biogás e resíduos sólidos urbanos somam pouco mais de 1 GW adicionais.

Gráfico expansão termicas PDE 2035

A tendência também prevê a modernização de 8.689 MW por meio de retrofits, incluindo conversão e adaptação de usinas existentes.

Os investimentos associados indicam a centralidade dessa rota. As térmicas a gás flexíveis somam estimativa de R$ 52,7 bilhões, enquanto as inflexíveis representam R$ 39,9 bilhões, valores que evidenciam a aposta do planejamento estatal em capacidade despachável como “seguro” do sistema.

Tabela investimentos na expansão da geração PDE 2035

Segundo o PDE, a expansão térmica responde ao aumento dos requisitos de potência firme e flexibilidade operativa, que crescem à medida que fontes intermitentes ampliam sua participação na matriz. Além disso, o atendimento aos critérios de segurança elétrica e a necessidade de maior resiliência frente a eventos climáticos extremos exigem recursos capazes de garantir suprimento contínuo e resposta rápida a variações da carga líquida.

Embora de forma limitada, mas representando aumento superior a 200% no período, o PDE incorpora a expansão de térmicas a resíduos, incluindo 700 MW em usinas a biogás e 350 MW em térmicas a resíduos sólidos urbanos (RSU), totalizando 1.050 MW adicionais até 2035.

Com isso, a capacidade instalada combinada dessas fontes renováveis deve passar de cerca de 0,6 GW atualmente para aproximadamente 1,9 GW em 2035. Apesar da expansão expressiva em termos relativos, sua participação na matriz elétrica permanecerá inferior a 1%, refletindo o caráter distribuído e a escala reduzida desses projetos, sem caráter estrutural na oferta de potência. O plano atribui a essas usinas, porém, papel complementar e com contribuição relevante para a descarbonização, com geração despachável e integração com os setores de saneamento, agropecuária e gestão de resíduos.

Renováveis e baterias

A expansão térmica ocorre em paralelo ao avanço acelerado das renováveis variáveis, que continuam liderando o crescimento da capacidade instalada. A geração distribuída solar deverá saltar de 40 GW em 2025 para 78 GW em 2035, tornando-se o segmento que mais cresce em termos absolutos. A eólica também avança de 35 GW para 50 GW no período, enquanto a solar centralizada amplia presença, passando de 4,4% para 5,2% na composição da geração no período (20 GW para 29 GW).

Nesse contexto, o PDE 2035 projeta também a incorporação de cerca de 7 GW em sistemas de armazenamento por baterias até o final do horizonte decenal, introduzindo essa tecnologia como novo vetor de flexibilidade operativa. Ainda assim, sua escala permanece significativamente inferior à expansão térmica prevista. Mesmo com a incorporação dos 7 GW, o volume representa menos de um sexto da capacidade térmica total projetada para 2035.

O contraste evidencia que, embora as baterias assumam papel crescente no suporte à operação e na mitigação da variabilidade renovável, o planejamento energético mantém as térmicas como principal instrumento estrutural para garantir potência firme e segurança do suprimento. Ao contrário das baterias, cuja contribuição depende do estado de carga e da duração do armazenamento disponível, as térmicas oferecem potência firme contínua, atributo central para o atendimento à ponta e à confiabilidade do sistema.

Já a hidrelétrica — ainda principal fonte do sistema — cresce pouco em termos absolutos, passando de 109 GW para 113 GW, o que reduz sua participação de 44% para 32% da capacidade instalada total. Esse movimento evidencia esgotamento do potencial de expansão de grandes reservatórios.

Matriz elétrica PDE 2035

A mudança estrutural da matriz também aparece na geração efetiva de energia. O PDE estima que a produção total de eletricidade subirá de 810,6 TWh em 2025 para 1.122,1 TWh em 2035, expansão de aproximadamente 38% em dez anos. No mesmo período, a participação da eólica cresce de 15,1% para 16,4%, e a solar centralizada de 4,4% para 5,2%, ampliando o peso das fontes intermitentes na composição da geração.

Mesmo com a manutenção de uma matriz altamente renovável, o gás natural amplia seu papel na matriz energética total do país, elevando sua participação de 10% em 2025 para 13% em 2035, com crescimento médio anual de 5,7%, enquanto o petróleo e derivados recuam de 33% para 29% no mesmo período. Para o planejamento, esse movimento reflete a função estratégica do gás como instrumento de estabilidade e flexibilidade em um sistema mais complexo e interdependente.

O PDE também projeta 2.780 MW em novas térmicas de autoprodução até 2035, indicando que a busca por segurança e previsibilidade se estende aos grandes consumidores industriais, que veem na geração própria uma forma de mitigar riscos operacionais e de custo.

Ao posicionar quase 19 GW em novas térmicas, além da modernização de 8,7 GW do parque existente, a EPE deixa claro na sua proposta de planejamento que a transição energética brasileira precisará ocorrer com reforço da capacidade despachável, com as térmicas como principal pilar de potência firme e segurança operativa.

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