O ano em que a energia limpa virou risco de apagão
Opinião
O ano em que a energia limpa virou risco de apagão
O ano 2025 teve 16 dias críticos em que o país passou perto de uma sobreoferta não controlada, podendo culminar em apagão. Foram 15 domingos e um sábado e os domingos de sol passaram a ser o pesadelo do setor elétrico, especialmente nas manhãs
O ano de 2025 entrou para a história do setor elétrico brasileiro como o momento em que o país precisou encarar um paradoxo incômodo: somos uma potência mundial em energia renovável, mas corremos risco de instabilidade no Sistema Interligado Nacional por excesso de energia limpa.
Ao longo do ano, seja pela sobreoferta energética ou por limitações da infraestrutura, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) precisou cortar 20,6% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido gerada. O chamado “curtailment” provocou R$ 6 bilhões em prejuízos e evidenciou a fragilidade da transição energética brasileira.
Somente em outubro, os cortes de geração das usinas eólicas e solares atingiram 8.000MW médios, equivalente à toda a geração da parte brasileira da hidroelétrica de Itaipu. Novembro trouxe um sopro de alívio, com 4.600MW médios cortados e um impacto financeiro em torno de R$700milhões, frente ao prejuízo de R$1,1bilhão no mês anterior. Dezembro tem apresentado cortes menores, da ordem de 1.700MW médios.
A operação do sistema começou a reagir, o setor está se reorganizando e as características climáticas próprias desse período do ano também ajudam. Os estados mais impactos com os cortes em novembro são Rio Grande do Norte (28,99%), Ceará (28,81%) e Minas Gerais (25,47%).
Se considerarmos a referência de que uma operação elétrica segura requer ao menos 20% de geração não cortada nas horas mais críticas, até o momento, 2025 teve 16 dias críticos em que o país passou perto de uma sobreoferta não controlada, podendo culminar em apagão: 4 de maio; 6 e 13 de julho; 3, 10, 17 e 31 de agosto; 7, 14, 27 e 28 de setembro; 5, 19 e 26 de outubro; 9 e 16 de novembro.
Foram 15 domingos e um sábado. Durante o fim das manhãs, mais de 80% da geração foram cortados nesses dias. Caso os cortes atingissem 100% e ainda persistissem sobras, o sistema poderia entrar em colapso. De fato, os domingos de sol passaram a ser o pesadelo do setor elétrico, especialmente nas manhãs.
Recomenda-se manter a atenção no período das festas de fim de ano, quando o risco aumenta ainda mais pela queda no consumo de energia por razões sazonais. Com base nos dados históricos recentes, estima-se que o consumo vai diminuir em 8.600MW médios, o que eleva significativamente a chance de uma sobra estrutural de energia nas manhãs.
A conclusão a que se chega nessa retrospectiva é que o Brasil tem uma grande vantagem natural, mas se esse diferencial não for bem gerido, torna-se um risco para a estabilidade do sistema elétrico.
Ao longo do ano, algumas vezes passamos perto de um apagão porque não soubemos organizar a expansão das energias renováveis e não nos planejamos para lidar com os recursos disponíveis.
Seguimos promovendo desperdício enquanto milhões de pessoas ainda enfrentam a pobreza energética no país.
Que em 2026 sejamos capazes de equacionar as lacunas regulatórias, que seja possível implementar tarifas horárias, distribuir melhor a demanda sobre o sistema e ajudar o consumidor a economizar na conta de luz sem ter que abrir mão de conforto, segurança e dignidade.



