Perspectivas e performance da indústria de O&G

Opinião

Perspectivas e performance da indústria de O&G

Mantida a produção atual, as reservas mundiais de petróleo e gás atendem em mais 50 anos o consumo atual, sem considerar os reservatórios não convencionais. O mundo terá tecnologia e recursos financeiros para incrementar a produção neste período? E o Brasil estará em posição vulnerável?

Por José Almeida

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Coautores: Kazumi Miura, Lincoln R. Guardado e Bruno Leonel

O mundo já produziu por volta de 1,6 trilhão de barris de petróleo e entre 160 e 180 trilhões de m3 de gás. Coincidentemente quase o valor das reservas, tanto de óleo como de gás, ainda remanescente, que podem variar, a depender da fonte, entre 1,5 e 1,8  trilhão de barris de óleo e em torno de 200 trilhões de m3 de de gás convencional. Acrescentem-se a esse valor do gás outros 200 trilhões de m3 dos reservatórios não convencionais (shale gas), que já estão em produção em alguns países como Estados Unidos, China, Canadá e Argentina.

O mundo produz atualmente algo em torno de 36 bilhões de barris/ano de petróleo e 4 trilhões de m3/ano de gás. Em um dos seus relatórios sobre produção e consumo globais de petróleo, a EIA - US Energy Information and Administration indicou que esses dois vetores já superaram a marca de 100 milhões de barris/dia a partir de 2023. Em 2025, houve excedente de oferta em relação à demanda, o que pode ter contribuído para o declínio do preço do barril e para inviabilizar a produção de petróleo de qualidade inferior ou com custos mais elevados de produção.

Tudo indica que o pico de produção e consumo ainda não foi atingido, mas há indicativos de que o consumo já começa a se estabilizar, mesmo com o crescimento da população mundial. Se o consumo começar a declinar, consequentemente a produção também vai ter que se acomodar ou os preços voltariam a cair bruscamente, podendo resultar em redução brusca da exploração futura.

Adicionalmente aos reservatórios convencionais, há mais de 30% de reserva de óleo dos reservatórios não convencionais, que já produzem óleo, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, China e Argentina. Se esses reservatórios continuarem sendo explorados e produzirem nos níveis atuais, a duração das reservas mundiais de óleo terá um acréscimo de, no mínimo, 30%. O mesmo acontece para o gás não convencional, que registra mais de 200 trilhões de m3 de reservas, equivalente às reservas dos reservatórios convencionais.

Entre os onze maiores produtores de petróleo, o Brasil tem dado saltos extraordinários de produção e reservas. Basicamente, mais de 80% da produção brasileira está vindo dos campos do pré-sal e boa parte dos campos gigantes da Bacia de Santos. Ainda acreditamos que possa haver muito óleo a ser descoberto nesses reservatórios e em águas mais profundas, onde a Petrobras é pioneira e líder absoluta neste segmento, um marco extraordinário de nossa tecnologia.

Com as produções mundiais e principalmente o consumo tendendo a se manterem pouco acima dos 100 milhões de barris/dia, a  produção terá que se acomodar. Esse possivel ajuste vai implicar em estabilização ou redução dos preços do petróleo, como já vem acontecendo desde 2022, trazendo sérias implicações aos países que dependem do petróleo como propulsor de suas economias. Mais de 70% desta produção condicional está concentrada em 10 países.

A forte tendência de declínio de preços desde 2022 coincide como a acomodação do consumo em torno dos 100 milhões de barris/dia e essa indicação do provável pico de consumo certamente está sendo usada pelos países importadores para negociar preços mais atrativos.

O registro de novas descobertas está sendo cada dia mais reduzido, por razões diversas. Mas uma delas certamente são as áreas potenciais para novas descobertas, cada dia mais restritas e concentradas em águas profundas e ultra profundas nas bacias da América Latina (Brasil, Guiana, Suriname) e da costa oeste africana (Namíbia e outros países). Desde 2015, tem havido uma redução muito acentuada nas quantidades das descobertas de novas reservas. Aliás, 2015 foi o último ano com descobertas em torno de 20 bilhões de barris de óleo, volume muito abaixo da produção daquele ano, superior a 30 bilhões de barris.

Nos últimos dez anos tem havido forte tendência de descobertas menores, com volume acumulado inferior a 10 bilhões de barris/ano, ou seja, reposição em torno de 30% da produção mundial superior a 30 bilhões de barris/ano. Já os investimentos em exploração se reduziram de US$ 115 bilhões em 2013 para aproximadamente US$ 60 bilhões nos últimos anos, muito pouco para a reposição das reservas.  

Além da estabilização do consumo, há que se considerar a transição energética para fontes de energia mais limpas e renováveis. Esse é outro fator que pode contribuir para uma queda no preço do barril. A boa notícia é que as reservas atuais irão garantir a produção por mais 50 ou até 60 anos, sem grandes novas descobertas, cabendo aos países se prepararem e adequarem-se a essa nova realidade.

 

 

* Kazumi Miura é engenheiro agrônomo e geólogo, atuou na Petrobras Internacional / Braspetro no Iraque, na PanAmerican Energy da Argentina e hoje é diretor do Oil Group; Lincoln Guardado é geólogo, conselheiro e consultor na área de petróleo. Bruno Leonel é geólogo na Petroil

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