Transição ecológica, política industrial e desenvolvimento

Opinião

Transição ecológica, política industrial e desenvolvimento

Entre 2023 e 2025, a Finep apoiou mais de 5.300 projetos inovadores, com a concessão de mais de R$ 45 bilhões, decisivo para o desenvolvimento de tecnologias críticas em segmentos como etanol, combustíveis sustentáveis de aviação, biodiesel, biogás e outros

Por Newton Hamatsu

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Coautores: Eliane Araujo e Lea Vidigal

A transição para uma economia de baixo carbono tem levado diferentes países a rever seus modelos de desenvolvimento, com maior uso de políticas voltadas à inovação, descarbonização, digitalização e modernização produtiva. O debate deixou de ser sobre a presença ou não do Estado e passou a se concentrar nos instrumentos mais eficazes para mobilizar capital privado, reduzir riscos tecnológicos e coordenar investimentos em setores estratégicos.

Nesse contexto, o apoio público ao P&D empresarial nos países da OCDE cresceu significativamente, passando de US$ 111 bilhões em 2016 para US$ 162 bilhões em 2022 (OCDE, 2025).

Em linha com este contexto internacional, o governo brasileiro lançou em 2024 a Nova Indústria Brasil, política industrial que busca combinar inovação, reindustrialização, sustentabilidade e geração de empregos qualificados, inserindo o país nas cadeias globais da economia verde. A Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), é um dos principais pilares da NIB.

Entre 2023 e 2025, a Finep apoiou mais de 5.300 projetos inovadores, com a concessão de mais de R$ 45 bilhões. Trata-se de um volume expressivo, que reforça o papel da Finep, especialmente no financiamento de iniciativas em estágios de maior risco tecnológico.

Um dos focos centrais do apoio da Finep está direcionado a projetos relacionados à transição ecológica. Embora imponha desafios adicionais à dinâmica produtiva global, a transição ecológica posiciona o Brasil em uma condição singular de oportunidades.

A matriz energética predominantemente limpa, o amplo potencial de expansão de fontes renováveis - especialmente eólica e solar -, a liderança na produção de biocombustíveis e a disponibilidade de minerais críticos conferem ao país vantagens relevantes na economia de baixo carbono.

O principal desafio, nesse cenário, é converter esse potencial em resultados socioeconômicos concretos e sustentáveis.

A inovação constitui o principal vetor dessa transformação, ao elevar a competitividade das indústrias existentes, viabilizar a criação de novos mercados de alto valor agregado, ampliar a inserção do Brasil em segmentos estratégicos ainda pouco explorados e, adicionalmente, assegurar o domínio de tecnologias críticas, essenciais à autonomia produtiva e à soberania nacional.

Entretanto, o avanço dessas tecnologias envolve barreiras significativas. Projetos relacionados à transformação ecológica demandam elevados investimentos, desenvolvimento tecnológico intensivo e forte articulação entre empresas, startups, e institutos de pesquisa. Além disso, a introdução de novas rotas tecnológicas e a adaptação de processos produtivos exigem tempo, escala e previsibilidade regulatória.

Nesse contexto, a Finep tem desempenhado papel central. Entre 2023 e 2025, foram apoiados mais de 700 projetos diretamente relacionados à transição ecológica, com financiamento superior a R$ 12,5 bilhões.

Esses investimentos são decisivos para o desenvolvimento de tecnologias críticas em segmentos como etanol, combustíveis sustentáveis de aviação, biodiesel, biogás, hidrogênio de baixa emissão de carbono, mobilidade sustentável, economia circular, descarbonização da indústria de base, baterias, equipamentos para geração de energia, minerais críticos da transição energética, dentre outras.

Considerando a importância da inovação para a Nova Indústria Brasil e para o futuro do país, o Governo Federal, por meio do Decreto nº 12.912, de 30/03/2026, autorizou o aumento do capital social da Finep, o que permitirá uma concessão de até R$ 30 bilhões em recursos reembolsáveis em 2026 para projetos inovadores de empresas de todos os portes e em todas as regiões do País que sejam diretamente aderentes às prioridades da NIB.

De maneira complementar ao crédito, a Finep anunciou, em fevereiro, o lançamento de 13 editais que somam mais R$ 3,3 bilhões em recursos de subvenção econômica - a maior iniciativa desse tipo já realizada no país. Os recursos serão destinados a projetos de alto grau de inovação e relevância para a sociedade, a serem executados por empresas de diferentes portes, obrigatoriamente em parceria com Instituições científicas, tecnológicas e de inovação.

Esses recursos serão essenciais para que o Brasil acelere o desenvolvimento e o domínio de tecnologias críticas, ampliando sua competitividade internacional, elevando a produtividade da economia e viabilizando a inserção em novos mercados de maior valor agregado.

Ao reduzir riscos tecnológicos e induzir investimentos privados, a Finep fortalece a capacidade inovativa das empresas brasileiras e contribui para a construção de uma base produtiva mais sofisticada, resiliente e sustentável.

Nesse sentido, o fortalecimento de seus instrumentos de financiamento não apenas apoia a transição ecológica, mas também se consolida como elemento estratégico para a autonomia tecnológica, a soberania nacional e o reposicionamento do Brasil nas cadeias globais de valor.

 

 

Eliane Araujo é doutora em Economia pela UFRJ e professora da UEM e da UFRGS. Lea Vidigal é mestre e doutora em Direito Econômico pela Universidade de São Paulo.

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