Descomissionamento da Indústria Mundial de Gás Natural
Opinião
Descomissionamento da Indústria Mundial de Gás Natural
É muito importante que se faça o provisionamento desse investimento enquanto a indústria ainda gera receita. Mesmo para o gás natural, que apresenta demandas de descomissionamento mais favoráveis do que as facilidades e infraestruturas de petróleo
Coautores: Bruno Leonel, Normando Lins e Cristiane Alkmin J. Schmidt
Descomissionamento é o conjunto de atividades técnicas, ambientais e administrativas realizadas ao final da vida útil de uma instalação industrial com o objetivo de encerrá-la de forma segura, ordenada e ambientalmente responsável. Em essência, trata-se de “desmontar” a infraestrutura que foi construída para produzir, transportar e entregar energia, de modo que o local onde ela operava possa ser devolvido ao meio ambiente ou reaproveitado para outras finalidades. No caso do gás, trata-se dos poços, das linhas de produção, dos gasodutos, das instalações de produção, das instalações de liquefação e gaseificação, dos navios e armazenagem em terra ou no mar.
A indústria de gás natural, por ser menos poluente do que a do petróleo e do carvão, apresenta demandas de descomissionamento mais favoráveis: a contaminação é menor e a limpeza das estruturas de armazenamento, transporte e consumo do gás é mais simples de ser executada. De qualquer forma, enfatiza-se a urgência de ser planejado o provisionamento agora, enquanto a indústria ainda gera receita.
Reservas e Produção Mundial
Estima-se que o mundo já tenha produzido mais de 170 trilhões de m³ de gás natural, provenientes dos chamados reservatórios convencionais e não convencionais. Estes últimos originam-se principalmente dos Estados Unidos, China, Canadá e, mais recentemente, da Argentina. Atualmente, a produção e o consumo mundiais situam-se em torno de 4 trilhões de m³/ano.
As reservas convencionais são estimadas em aproximadamente 200 trilhões de m³ e um volume similar é atribuído aos reservatórios não convencionais (shale gas), estimativa no segundo caso conservadoras, dada a falta estudos detalhados para a devida certificação dessas reservas.
Portanto, o mundo pode ainda abrigar grandes reservas de gás a serem descobertas, especialmente em águas ultraprofundas, o que poderia garantir a continuidade das reservas nos níveis atuais de produção por cerca de 100 anos. Quando o gás precisa ser transportado sem o uso de gasodutos - o que ocorre frequentemente nas exportações -, ele deve passar por um processo de liquefação, o que torna o transporte mais complexo e aumenta a quantidade de estrutura a ser descomissionada ao final do ciclo produtivo.
Um mapa elaborado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos e utilizado nesse artigo indica onde se concentram as maiores reservas de gás natural do mundo. Destacam-se a Sibéria, o Mar de Barents e o Oriente Médio, onde se localiza o maior campo de gás do planeta, compartilhado entre Irã e Qatar. Nas últimas décadas, boas descobertas também foram realizadas no leste africano e no Mar Mediterrâneo, em especial em Israel e no Egito.
Descomissionamento da Indústria de gás
Não encontramos um número síntese da quantidade de poços de gás ativos no mundo. Há indicações de que somente nos Estados Unidos existam mais de 450 mil poços ativos, grande parte deles horizontais, voltados para reservatórios não convencionais. Na Rússia, um dos maiores produtores mundiais, estima-se a existência de mais de 10.000 poços. Nos campos offshore, o número de poços é, em geral, menor.
Muitos outros poços produzem gás associado ao petróleo e, em alguns casos, após o encerramento da produção de óleo, convertem-se em poços de gás. Para fins de estimativa, considerando aproximadamente 600 mil poços ativos a serem descomissionados ao final de sua vida produtiva - e adotando um custo unitário similar ao de um poço de petróleo, de cerca de US$ 300 mil -, o custo total do descomissionamento de todos os poços, incluindo a remoção das linhas de produção, o arrasamento e a recuperação das locações, chegaria a aproximadamente US$ 180 bilhões.
O mundo conta atualmente com cerca de 2.084 plantas de processamento e tratamento de gás natural (dados de 2023). Os Estados Unidos lideram com 987 unidades, seguidos pela Rússia com 177, China com 162 e Alemanha com 131; as demais 627 unidades distribuem-se por outros países, incluindo a Argélia. Os 20 maiores países produtores concentram mais de 78% do total das plantas de processamento de gás do planeta. Essas instalações recebem, processam e tratam o gás antes de seu envio ao mercado consumidor.
Há indicações de que uma planta com capacidade de processamento de 3 milhões de m³ por dia possa custar entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão, dependendo de fatores como localização, especificações técnicas, tipo de gás a ser tratado e necessidade de remoção de líquidos. Esse mesmo patamar de investimento pode ser tomado como referência para o custo do descomissionamento completo, incluindo limpeza da área, remoção de materiais, equipamentos e estruturas, bem como de toda a rede de dutos associada.
Adotando um valor médio de US$ 400 milhões por planta e considerando o total de unidades existentes no mundo, chega-se a um custo estimado superior a US$ 800 bilhões para o descomissionamento integral do parque de processamento. A venda do material e dos equipamentos descomissionados poderá representar uma redução de aproximadamente 30% nesse montante.
Terminais de Liquefação de GNL
Em 2024, operavam no mundo aproximadamente 80 terminais ativos de liquefação de gás natural em GNL, com capacidade total de cerca de 500 milhões de t/ano. Os Estados Unidos figuravam com 16 terminais, seguido por Austrália (12) e Qatar (11), cabendo aos demais países as 41 unidades restantes. A Ásia vive um período de rápida expansão, com potencial de agregar até 290 bilhões de metros cúbicos adicionais de capacidade por ano até 2030.
Os custos de implantação de uma planta com capacidade entre 3 e 5 milhões de t/ano podem alcançar entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões, dependendo de diversas variáveis. Para efeito de estimativa, considera-se que o custo do descomissionamento corresponda à metade do valor de construção, ou seja, em torno de US$ 2 bilhões por unidade, com possibilidade de recuperação parcial pela venda dos materiais e equipamentos.
Assim, o custo total do descomissionamento de todas as plantas de liquefação pode atingir um montante da ordem de US$ 160 bilhões, incluindo a remoção de todas as linhas e conexões envolvidas.
Terminais de Regaseificação
Existem atualmente 192 terminais de regaseificação ao redor do mundo, com capacidade total de 1,14 bilhão de t/ano. Cerca de 48 países importam GNL atualmente, enquanto 20 países figuram como exportadores, entre eles os Estados Unidos, que passaram a exportar gás há aproximadamente quatro anos, em razão da produção de shale gas oriunda dos reservatórios não convencionais. A Ásia lidera como região importadora, respondendo por 65% de todo o mercado, frequentemente por meio de contratos de curto prazo.
Embora os terminais de regaseificação sejam facilidades operacionais de processos relativamente simples, estimando-se cerca de US$ 1 bilhão por unidade, o custo total do descomissionamento de todos os terminais e da remoção dos respectivos dutos pode atingir aproximadamente US$ 192 bilhões.
Gasodutos de alta pressão
A rede mundial de gasodutos de alta pressão para transporte de gás é estimada em mais de 1 milhão de quilômetros, com maior concentração nos Estados Unidos, Rússia, China, Europa e, mais recentemente, na Índia. Embora apresentem contaminação significativamente inferior à dos dutos de petróleo, a maior parte dessas tubulações deverá ser removida após o encerramento da produção e do transporte de gás.
Estima-se que cerca de 50% dos dutos possam ser limpos e abandonados no local, sem necessidade de remoção física; os 50% restantes — aproximadamente 500 mil km — deverão ser removidos, a um custo de US$ 300 mil por quilômetro (metade do custo estimado para dutos de petróleo).
Isso representaria um custo total de US$ 150 bilhões para a remoção e limpeza completa, com possibilidade de recuperação de aproximadamente 30% dos custos por meio da venda do material retirado.
Navios Metaneiros
O mundo conta atualmente com aproximadamente 750 navios para transporte de GNL e as indicações de mercado apontam para a encomenda de mais 300 novas unidades, com entrega prevista para os próximos anos. Entre os maiores exemplares estão os navios do tipo Q-Max, operados pela Qatar Gas, com capacidade de 266.000 m³ de GNL e custo de construção da ordem de US$ 300 milhões cada.
A denominação reflete sua origem: "Q" de Qatar, "Max" de tamanho máximo; a frota é composta por 14 embarcações e conta com sistema de reliquefação a bordo, que reconverte o gás evaporado durante a viagem, retornando-o aos tanques do navio.
Estima-se que esses navios tenham destino semelhante ao dos petroleiros ao final de sua vida útil: serão enviados a países asiáticos para desmonte e aproveitamento dos materiais, especialmente aço e componentes das plantas de gás.
O custo desse desmonte tende a ser compensado pela receita obtida com a venda dos materiais recuperados, podendo resultar até em pequeno ganho líquido, conforme ocorre com os navios petroleiros.
Considerações Finais
De um modo geral, o custo total do descomissionamento completo da indústria mundial de gás natural pode ser estimado em cerca de US$ 1,48 trilhão de dólares, valor que deverá ser distribuído ao longo dos anos, à medida que os campos forem encerrando sua produção.
O descomissionamento de cada instalação só poderá ocorrer após a completa interrupção do fornecimento de gás naquele trecho da cadeia, ainda que em volumes progressivamente menores. O que torna um complicador para o descomissionamento progressivo.
Caso não haja provisionamento adequado para fazer frente a esses custos, corre-se o risco de deixar um expressivo passivo ambiental ao final da vida útil das instalações. Fica, portanto, a pergunta: quem arcará com essa conta? A resposta mais adequada aponta para os fornecedores de gás e não para o consumidor final.
Bruno Leonel é geólogo e geofísico, trabalhou na Starfish-Sonangol, OGG Petróleo e atualmente é gerente do campo de óleo de Tigre, da Petroil Óleo e Gás
Normando Lins é engenheiro de Minas, foi responsável por operações da Petrobras em vários países e atualmente é diretor na Petroil, Shaft e EBS.
Cristiane Alkmin J. Schmidt é doutora em Economia, professora da FGV e atuou no Ministério Fazenda e Cade e foi secretária da Fazenda e Orçamento Goiás. Atualmente é presidente da MSGás



