O que o momento da Noruega traz de relevante para o Brasil

Opinião

O que o momento da Noruega traz de relevante para o Brasil

Entre os destaques observados em um país com produção declinante e aumento de custos, o Conteúdo Local se internalizou de tal forma que a obrigação regulatória do passado se transformou em um elemento permanente na cultura de empresas e profissionais

Por Wagner Victer

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Estive recentemente participando da ONS 2026, na Noruega, e pude acompanhar conferências, e visitar a exposição de mais de mil empresas. Um evento extremamente prestigiado, com os CEOs das principais oil companies que operam no Mar do Norte e nas novas fronteiras da África.

Para minha grata surpresa, o antigo prefeito de Stavanger, Leif Sevland, que ocupou este mandato durante 16 anos, atualmente é o presidente da Fundação NOS, organizadora brilhante do evento de quatro dias. O evento, que acontece a cada dois anos em Stavanger, certamente já pode ser considerado o maior evento de petróleo da Europa, superando, em muito, o que também acontece em anos alternados em Aberdeen na Escócia.

Nos eventos da indústria offshore mundial, possivelmente a ONS só será superada, em área e número de visitantes, pela nossa antiga Rio Oil Gas, atualmente chamada de ROG.e, que neste ano retornará ao Riocentro. A tradicional OTC em Houston perdeu muitos visitantes e expositores e tem pouca participação das majors do setor de O&G.

A ONS 2026 recebeu cerca de 65 mil visitantes e a exposição foi organizada em imensos galpões alinhados, com cerca de 1 km de extensão, separados em diversos halls temáticos e com diversas arenas de debates e palestras. A  participação de executivos de oil companies foi  relevante e, também seguindo a tendência de outros eventos, de muitas empresas chinesas.

Brasileiros participaram em mesas redondas e palestras, tanto na conferência quanto em  eventos paralelos, como o Brasil Energy Meeting in Norway, promovido pela Norwep, em conjunto com a ZoomOut e a Brasca. Destaque para a participação da diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia Anjos, em uma concorrida mesa onde debateu o futuro da energia fóssil com os CEOs da Total, Shell e da Equinor. Aliás, o trabalho da Norwep, organização  com representação em diversos países, funcionando como uma Apex para a indústria de óleo, gás e energia, foi muito ativo.

Em eventos no exterior, costumo entender as tendências, como opera a produção local e comparar com situações no passado. Desde a década de 1990, tenho visitado a Noruega, em especial Stavanger, onde assinamos em 2000, pelo Governo do Estado do RJ e o Condado de Rogaland, um acordo entre Estados Irmãos. O Condado de Rogaland, onde se situa Stavanger, é a principal base petrolífera do país.

Ao contrário do que acontece no lado do Reino Unido, é notável a efervescência do lado norueguês do Mar do Norte, sob a forte liderança e protagonismo da Equinor. Ainda assim,  o Mar do Norte está em franco declínio, a ponto de descobertas de 400 milhões de boe sejam consideradas bastante relevantes para uma região que viveu grande prosperidade e em contraste com as gigantes descobertas do pré-sal brasileiro.

O evento e os debates, sob o provocante tema "Courage", se concentraram nos desafios do declínio da produção e na Transição Energética. As fontes renováveis não são vistas como solução de "substituição energética” no curto prazo, mas como fontes que se somam ao que já existe. Outros dois temas também muito debatidos envolveram segurança energética e os impactos geopolíticos.

A concorrida palestra do presidente da Agência Internacional de Energia (IEA), o economista turco Fatih Birol, focou bastante esse contexto, à semelhança do que temos adotado no Brasil, onde a adição energética já é considerada palavra de ordem para um caminho em que o petróleo e o gás natural ainda terão bastante futuro.

Observei que o conceito de Conteúdo Local, que aflorou na Noruega no final da década de 1960, se internalizou de tal forma que a obrigação regulatória do passado se transformou em um elemento permanente na cultura de empresas e profissionais.

O conceito é tão forte que os sindicatos de trabalhadores muitas vezes inviabilizam a contratação de trabalhadores de fora se não falam o Norueguês, língua oficial em todas as plataformas e não o inglês.

Os noruegueses, conceitualmente, não consideram a hipótese de fazer, fora do seu país, algo que tecnicamente possa lá ser feito. A presença histórica e indutora do governo norueguês nessa questão também é muito forte. Ao contrário do que acontece no Mar do Norte inglês, o governo norueguês continua apoiando as atividades exploratórias, chegando a subsidiar 78 % dos custos dos poços sem sucesso.

Isso traz intensidade à atividade exploratória. É o caso de uma certa empresa com previsão de perfurar 25 novos poços exploratórios por ano, totalizando 250 nos próximos 10 anos, para garantir à Noruega a posição de maior produtor da região e principal exportador de gás para o Reino Unido e países da Comunidade Econômica Europeia, em especial a Alemanha.

No Mar do Norte norueguês a produção continua declinante, associada ao aumento de custos que chegam, às vezes, a 90%, na área de subsea. Por isso, cortar custos é uma obsessão. É o caso da adoção de especificações próprias mais alinhadas às do mercado – que chamam de Standartization -, do aumento de tiebacks para interligação de poços e recuperação de campos maduros e de novas técnicas que reduzam os custos de descomissionamento.

Como pauta permanente, a Indústria de óleo e gás norueguesa sempre valoriza a redução de custos, a otimização de processos e a extensão de vida produtiva dos campos. Uma das grandes empresas estabeleceu como meta reduzir à metade o número de reuniões com o objetivo de imprimir mais foco e agilidade ao corpo técnico.

O Brasil continua atraindo respeito e interesse da indústria do petróleo internacional. A apresentação que fizemos, como Petrobras, sobre o Projeto Búzios 12 lotou o auditório, inclusive com os principais executivos das empresas de engenharia participantes das últimas licitações da empresa.

A contratação de novas plataformas pelo modelo BOT, com a execução do chamado "Early Engagement" para otimização dos projetos, buscando a redução de peso dos topsides e menores custos, foi bastante elogiada pelas empresas que lá compareceram.

Além da Petrobras, a comitiva brasileira incluiu representantes da ANP, PPSA, MME, IBP, SPE Macaé, SindaRio e Soamar, da indústria, profissionais e prefeituras fluminenses. Aliás, foi  notável constatar o número de brasileiros atuando em posições relevantes em empresas norueguesas.

A informação circulante de que está em fase de finalização um potencial acordo de livre comércio entre Brasil e Noruega não tira o ânimo da formação de parcerias visando o cumprimento das exigências de conteúdo local, previstos nos contratos brasileiros.

Decididamente, a ONS merece entrar no calendário de quem atua na indústria de O&G. A experiência norueguesa deve ser acompanhada, em especial nas estratégias adotadas para o enfrentamento ao declínio da produção da sua costa.

 

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