Opinião

Minerais “verdes” atravessam a fronteira Brasil-Venezuela

A mineração que sustenta a transição energética está produzindo, na fronteira do Brasil com Venezuela e Guiana, escravidão moderna, exploração sexual, violência armada, poluição irreversível e ausência total de controle ambiental.

Por Rubem Cesar

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Enquanto o mundo corre para substituir combustíveis fósseis por tecnologias limpas, a Amazônia brasileira e venezuelana tornou-se palco de uma nova disputa. Não se trata mais apenas de ouro, mas de minerais cada vez mais cobiçados pela economia verde, como coltan (tântalo e nióbio), cobre, níquel e cassiterita (estanho). Eles são o alicerce de baterias, semicondutores, painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos.

Nos laboratórios industriais, esses minerais representam inovação. Na floresta, representam violência, desmatamento, contrabando e colapso humanitário.

O epicentro dessa crise é o Arco Minero del Orinoco (AMO), no sul da Venezuela, cuja atividade mineral corre, infiltra-se e explode em impactos no norte de Roraima, atravessando rios, trilhas clandestinas, aldeias e fronteiras enfraquecidas.

Arco Minero, promessa e turbulência

Em 2016, a Venezuela transformou 111 mil km² de floresta amazônica na mais ambiciosa aposta de diversificação econômica de sua história: o Arco Minero del Orinoco, zona estratégica para exploração de ouro, coltan, diamantes, bauxita, ferro, cobre e urânio. 

Se, no discurso oficial, o AMO serviria para impulsionar um novo ciclo econômico, na prática tornou-se uma das regiões mais violentas e desreguladas da América do Sul, conforme investigações internacionais.

Relatórios mostram que 86% do ouro venezuelano é produzido ilegalmente, alimentando redes de contrabando e corrupção ligadas ao regime. Houve aumento de doenças infecciosas, violência armada, deslocamentos forçados e colapso ambiental entre povos indígenas da região, especialmente os Yanomami. 

Mas não é só ouro. O AMO concentra também minerais que estão no coração da revolução energética global.

Coltan – A columbita-tantalita combina tântalo e nióbio e é fundamental para supercapacitores, sistemas aeroespaciais (motores, turbinas, cápsulas orbitais, entre outros), baterias de equipamentos eletrônicos e capacitores de tântalo usados em vários componentes de carros elétricos. Reportagens recentes destacam que a Venezuela abriga depósitos de coltan que atraem grupos armados e redes criminosas, gerando disputas fatais na região de Bolívar. E o contrabando não termina ali; parte desse coltan cruza a fronteira com o Brasil, camuflado entre cargas de ouro e estanho. O mercado internacional raramente detecta a origem.

Cobre e níquel - A transição energética depende de cobre para redes elétricas e níquel para baterias de íons de lítio. Ambos estão presentes em depósitos do AMO, segundo levantamentos apresentados em reportagens e análises geológicas. Com o aumento da demanda internacional, cresce também o valor de mercado desses minerais, o interesse de facções armadas e o incentivo econômico para explorações clandestinas.

Cassiterita - No Brasil, especialmente em Roraima, o mineral que mais cresce em apreensões é a cassiterita, fonte de estanho, essencial para painéis solares, eletroeletrônicos e soldas industriais. Operações federais entre 2024 e 2025 apreenderam toneladas do minério, parte dele extraído ilegalmente, inclusive com estruturas conectadas à fronteira. Investigações identificaram que a cassiterita está sendo extraída clandestinamente na TI Yanomami, contrabandeada por rotas fluviais, refinada em Roraima e enviada para fora do Brasil.

A mineração venezuelana se infiltra no Brasil

A faixa entre Venezuela, Roraima e Guiana tornou-se um corredor mineral ilegal. Forças de repressão brasileiras sabem que, a cada operação na TI Yanomami, o garimpo migra para o lado venezuelano e vice-versa.

Moradores e lideranças relatam que balsas e escavadeiras cruzam o rio Maú, na Raposa Serra do Sol, vindas da Guiana, para garimpar no Brasil durante a madrugada. Do lado venezuelano, garimpeiros fogem do controle militar e cruzam a fronteira por trilhas, carregando ouro ilegal, coltan em pequenas quantidades, pedras de cassiterita e mercúrio.

A fronteira, para eles, é apenas um detalhe que os protege.

No caso do ouro e da cassiterita, as principais rotas identificadas são a BR-174 (Pacaraima–Boa Vista), o Rio Uraricoera (artéria fluvial do garimpo na TI Yanomami usada por grupos brasileiros, venezuelanos e híbridos) e a BR-401 e rotas rurais para a Guiana (caminho de saída para exportação informal).

A Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal apreenderam, em apenas um ano mais de 36 kg de ouro, 3 toneladas de cassiterita em veículos adaptados para esconder barras de minério. 

Economia paralela e seus efeitos

A mineração venezuelana cria uma cadeia que atravessa Roraima, envolvendo a compra de combustível no Brasil, financiamento de balsas e máquinas, lavagem de ouro em empresas locais, recrutamento de trabalhadores brasileiros para operar no AMO e envio de minérios estratégicos para rotas internacionais.

Levantamentos jornalísticos mostram que garimpeiros brasileiros investigados por crimes ambientais migraram para a Guiana e Venezuela para continuar extraindo recursos da transição, longe da fiscalização. 

O Observatório do Mercúrio e estudos da Fiocruz mostram níveis alarmantes de contaminação entre povos indígenas amazônicos, devido ao uso massivo de mercúrio no garimpo. 

Entre os impactos estão a contaminação neurológica, os danos em fetos, a redução de QI em crianças, as doenças renais e o colapso na segurança alimentar por contaminação de peixes.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) registrou que doenças como tuberculose, hepatite, malária e pneumonia aumentam nas comunidades atingidas pela expansão minerária no AMO e nas regiões de fronteira. Além disso, parte dos garimpeiros venezuelanos doentes cruza a fronteira em busca de atendimento no Brasil, sobrecarregando serviços de saúde em Roraima.

A transição energética e o seu contrário

Este é o ponto mais sensível. Os minerais venezuelanos e brasileiros envolvidos em cadeias ilegais acabam entrando na indústria que fabrica tecnologias “verdes”.

Enquanto a ONU alerta para a necessidade de mineração responsável para a transição energética, há regiões, como o AMO, que produzem exatamente o contrário; cadeias marcadas por escravidão moderna, exploração sexual, violência armada, poluição irreversível e ausência total de controle ambiental. 

Esses recursos entram no mercado misturados a minérios legais, terminando em celulares, carros elétricos, turbinas eólicas e computadores, comprados por consumidores que jamais saberão a origem devastadora de seus componentes.

Essa corrida pelos minerais estratégicos na Amazônia, especialmente no sul da Venezuela, coloca o Brasil diante de uma escolha difícil; fechar os olhos para a mineração transfronteiriça, deixando que o garimpo ilegal continue devastando Roraima e financiando redes criminosas, ou construir uma coalizão internacional envolvendo Brasil, Venezuela e Guiana para controlar cadeias minerais estratégicas.

Sem controle, a Amazônia corre o risco de virar uma “Somália mineral”, com florestas substituídas por buracos, rios mortos e povos indígenas extintos por contaminação e violência.

O mundo exige energia limpa. A Amazônia está pagando a conta suja.

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