Opinião

Bioeletricidade é estratégica e cresce 10% no primeiro semestre

São usinas que ofertam geração renovável, não intermitente e de custo relativo global baixo, pois a maior parte é de térmicas descentralizadas, com custo variável unitário (CVU) nulo

Por Zilmar de Souza

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De janeiro a junho deste ano, a geração de energia elétrica para a rede pela fonte biomassa foi de 11.335 GWh, de acordo com levantamento inédito da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), realizado com base em dados preliminares de medição pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). O número espelha uma oferta de energia elétrica 9,6% superior em relação ao mesmo período do ano passado.

Essa oferta de bioeletricidade inclui a geração com as diversas biomassas disponíveis:  bagaço e palha de cana-de-açúcar, biogás, lixívia, resíduos de madeira, dentre outras, e não considera a geração de energia elétrica para o atendimento ao consumo próprio das indústrias associadas, como a sucroenergética e de papel e celulose, estruturadas, na maior parte, dentro do conceito de cogeração de energia elétrica.

Em abril deste ano, a energia armazenada nos reservatórios do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste estavam no melhor nível deste ano (72,9%), mas inferior aos notáveis 86,2% de abril de 2023. Já em agosto deste ano, esse índice fecha em torno de 56%, ainda bem melhor que valores de períodos críticos recentes, como o do ano de 2021.

Mesmo assim este cenário já acendeu a “luz amarela”, exigindo para os próximos meses a utilização de mais geração termelétrica convencional, a resposta voluntária da demanda – RVD e a importação de energia elétrica da Argentina e Uruguai, para fins de garantia do suprimento eletroenergético.

Essa volatilidade nos volumes de energia armazenada torna a bioeletricidade estratégica para a garantia do suprimento no Sistema Interligado Nacional (SIN), sendo que a maior parte da oferta dessa energia renovável ocorre no Subsistema Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO). 

Cabe ressaltar que esses 11.335 GWh foram equivalentes ao atendimento de 7,1% do consumo total de energia elétrica no Subsistema SE/CO, responsável por 56,9% do consumo no país, observando o mesmo período (janeiro a junho de 2024).

A  geração para a rede pela fonte biomassa é caracterizada como não intermitente e acompanha principalmente o período de colheita da cana-de-açúcar na Região Centro-Sul do país, que historicamente se torna mais robusta a partir de abril de cada ano.

Assim, outro aspecto estratégico é a concentração dessa geração no período seco e crítico no Subsistema SE/CO, que vai de maio a novembro de cada ano. Dos 11.335 GWh ofertados para a rede no 1º semestre deste ano, 58% ocorreram nos meses secos de maio e junho e 77% se agregarmos o mês de abril deste ano na conta. 

As térmicas, portanto, não respondem apenas emergencialmente quando a segurança energética está ameaçada, mas contribuem preventivamente para se evitar o esvaziamento dos reservatórios das grandes hidrelétricas no Subsistema SE/CO, a “caixa d’água” do sistema.

Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 249 dentre as 360 usinas a biomassa de cana-de-açúcar em operação em 2023 comercializaram eletricidade para a rede. Ou seja, as 111 usinas que ainda são passíveis de reforma (retrofit) podem se tornar, com a biomassa existente (sem considerar expansão), ofertantes de excedentes estratégicos de bioeletricidade para o SIN.

São usinas que ofertam geração renovável, não intermitente e de custo relativo global baixo, pois a maior parte é de térmicas descentralizadas, com custo variável unitário (CVU) nulo. 

É importante avançar com a modernização no setor elétrico brasileiro, estabelecendo critérios que valorizem os atributos ambientais, locacionais, elétricos, confiabilidade, econômicos e sociais advindos do uso da bioeletricidade e do biogás. 

Isto contribuirá para diminuir o custo global de operação do SIN, ao mesmo tempo em que os mecanismos de garantia do suprimento eletroenergético serão reforçados.

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