Oportunidades com o mercado livre de energia na Amazônia

Opinião

Oportunidades com o mercado livre de energia na Amazônia

O mercado livre de energia abre oportunidades de transformar recursos regionais em tecnologia e desenvolvimento na Amazônia. A questão é quem capturará o valor gerado por elas

Por Rubem Cesar

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A abertura do mercado de energia elétrica entrou em uma nova fase. Desde janeiro de 2024, todos os consumidores do Grupo A passaram a poder escolher seu fornecedor de energia elétrica, ampliando significativamente o universo potencial do Ambiente de Contratação Livre (ACL). Em 2025, o mercado livre alcançou aproximadamente 85 mil consumidores e passou a representar cerca de 43% do consumo de eletricidade do país.

Esse movimento, entretanto, não ocorre de maneira homogênea no território nacional. Na Amazônia, por exemplo, essa transformação precisa ser tratada a partir de uma perspectiva própria. A região possui grande diversidade de recursos energéticos, mas também enfrenta desafios relacionados à distância dos grandes centros de consumo, à infraestrutura de distribuição, à logística, à dispersão populacional e à existência de sistemas elétricos isolados.

Há risco de a abertura do mercado livre ampliar simplesmente a importação, sem aproveitar a demanda para criar oferta dentro da própria região.

O desafio, portanto, é a criação de condições para que a Amazônia se posicione melhor como produtora de energia, fornecedora de tecnologia, fabricante de equipamentos e geradora de negócios.

Recurso natural não é, por si só, garantia de desenvolvimento. É necessário transformá-lo em produto, energia, tecnologia, serviço, conhecimento e atividade econômica.

A região amazônica apresenta um conjunto diversificado de possibilidades, que inclui recursos hídricos, solar, biomassa com um leque extenso de produção de diversos energéticos e, em determinados locais, potencial eólico, além das oportunidades associadas ao armazenamento de energia e à integração de diferentes fontes.

A hidreletricidade, por exemplo, possui histórica importância na matriz energética regional e continuará tendo papel relevante em determinados contextos. Pequenas centrais hidrelétricas e outras soluções de aproveitamento de recursos hídricos podem encontrar aplicações específicas, uma vez observados critérios técnicos, econômicos, ambientais e sociais.

A energia solar apresenta grande potencial de complementaridade a outras fontes, especialmente em sistemas isolados. A biomassa pode contribuir para geração firme e aproveitamento de resíduos. O armazenamento por baterias pode aumentar a flexibilidade dos sistemas. A combinação dessas alternativas pode resultar em microrredes híbridas mais resilientes e adequadas às características amazônicas.

Resíduos agrícolas, florestais e agroindustriais, recursos hídricos, radiação solar e outras fontes podem participar de diferentes configurações energéticas. Combustão, briquetagem, gaseificação, pirólise, digestão anaeróbia para produção de biogás e biometano, craqueamento, transesterificação e esterificação, são algumas das rotas que podem ser avaliadas para a biomassa.

Também merece ser considerada, de maneira seletiva e sustentável, a produção de bioetanol a partir de matérias-primas nativas ou regionais da Amazônia. O bioetanol pode estabelecer uma conexão interessante com o mercado livre. A parte a produção do biocombustível, a unidade pode utilizar seus resíduos e subprodutos para geração de calor e eletricidade, com o excedente comercializado no ACL.

O mercado livre, portanto, pode contribuir para a equação econômica de uma cadeia de produção de biocombustíveis, não porque o bioetanol seja comercializado no ACL, mas porque a eletricidade produzida pela própria cadeia pode encontrar nesse ambiente um mercado para sua comercialização.

Portanto, a oportunidade não está em escolher uma única fonte, mas em desenvolver uma estratégia capaz de combinar diferentes recursos de acordo com as características de cada território e cadeia produtiva.

Há um ponto fundamental nessa discussão: a Amazônia não é outro país e, portanto, não precisa desenvolver do zero toda a tecnologia necessária para aproveitar seus recursos energéticos. O Brasil possui empresas, universidades, centros de pesquisa e capacidade industrial capazes de fornecer diversas tecnologias para geração, conversão, armazenamento, automação e gestão de energia. Existem soluções nacionais para hidreletricidade, geração a biomassa, gaseificação, sistemas térmicos, motores, geradores, equipamentos elétricos, automação e armazenamento.

Mas isso não significa que basta transferir equipamentos desenvolvidos para outras realidades e instalá-los na Amazônia. As condições regionais exigem, em alguns casos, adaptação, aperfeiçoamento e, em muitos casos, desenvolvimento de novas tecnologias. Distâncias, logística, clima, disponibilidade e características dos recursos, operação em sistemas isolados e dificuldades de manutenção são fatores que podem exigir soluções específicas.

Essa perspectiva cria uma oportunidade estratégica para o Polo Industrial de Manaus (PIM). Se o mercado energético amazônico crescer, haverá demanda por eletricidade, mas também por equipamentos, sistemas de controle, componentes, serviços de engenharia e soluções tecnológicas.

O PIM possui uma base industrial diversificada capaz de receber novas cadeias industriais de gaseificadores, sistemas de secagem, equipamentos de combustão, turbinas, geradores, sistemas de automação, painéis elétricos, inversores, sistemas de armazenamento e equipamentos para monitoramento. O mesmo vale para tecnologias para geração solar, hidrelétrica de pequena escala, biomassa e sistemas híbridos.

Essa estratégia dialoga com a lógica de desenvolvimento da Zona Franca de Manaus. O modelo possui instrumentos que estimulam industrialização, emprego, incorporação tecnológica, produtividade e competitividade. A oportunidade, portanto, não está simplesmente em criar mais um segmento industrial. Está em utilizar a demanda energética da Amazônia como indutora de novas cadeias industriais e tecnológicas no PIM.

Para isso, é necessária uma articulação entre governo, Suframa, empresas, universidades, institutos de pesquisa, investidores e agentes do setor elétrico, de forma a alcançar a expansão do mercado de produtos e serviços energéticos localmente e menos dependente de importações.

Essa discussão ganha ainda maior relevância para os sistemas isolados, onde a geração a diesel ainda possui papel importante, enquanto soluções híbridas podem combinar diferentes fontes e tecnologias. Soluções que podem transformar a Amazônia em um grande laboratório de tecnologias energéticas adaptadas a ambientes remotos.

Mas permanece o risco de perder-se uma oportunidade que vai muito além do preço da energia. Ou esse imenso território brasileiro será apenas mais um mercado comprador e dependente de fornecedores externos ou participará da sua concepção, fabricação, operação e evolução.

Sem uma estratégia coordenada, a Amazônia pode fornecer recursos, consumir energia e receber investimentos mas deixará de capturar parcela significativa do valor econômico e tecnológico associado às novas cadeias.

Além da criação de novas cadeias produtivas, importante incluir universidades e institutos de pesquisa para desenvolver novas tecnologias e reduzir o risco da adoção de soluções já existentes sem adaptá-las às características ambientais, logísticas e econômicas da Amazônia.

Resumindo: a grande oportunidade para a Amazônia não está apenas em entrar no mercado livre, mas aproveitar essa instância para construir uma nova economia energética, tecnológica e industrial na própria região.

 

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