Curtailment, a segurança do Sistema e o placar oculto

Opinião

Curtailment, a segurança do Sistema e o placar oculto

A inclusão das usinas Tipo III no Plano Emergencial de Curtailment afeta os processos produtivos acoplados à geração das usinas de bioenergia. Diferentemente das fontes puramente elétricas, usinas Tipo III geram energia e vapor para a produção de alimentos, etanol, papel e celulose, que não podem parar

Por Zilmar de Souza

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O recente Plano Emergencial de Gestão de Excedentes, operacionalizado pelo ONS na manhã do domingo de 7 de junho, trouxe um alerta para o setor da biomassa no Brasil: o curtailment deixou de ser um risco teórico para ser um fator de real restrição à bioeletricidade, em especial às chamadas usinas Tipo III (quando o operador do sistema não interfere na programação e nem despacha a usina).

Ao limitar 1 GW da geração de usinas Tipo III para equilibrar o sistema, entre 10h e 14h, a medida atingiu, de forma inédita e preocupante, usinas a biomassa, onde predomina a Tipo III. A fonte já vinha sofrendo, em escala menor, cortes de geração em usinas à biomassa do Tipo II (que participam da programação centralizada, mas também não são despachadas).

Compreendendo-se a responsabilidade do ONS em garantir a segurança operativa do Sistema Interligado Nacional (SIN) em momentos de excesso de oferta, em tempos de Copa do Mundo de Futebol, pode-se afirmar que tivemos um domingo em que o resultado foi de 1 a 0, em prol do curtailment e da estabilidade sistêmica, mas é imperativo integrar questões técnicas às estratégicas, que vão além do impacto no setor elétrico, para se evitar um placar oculto do jogo do curtailment.

Do lado das questões técnicas, o curtailment em 7 de junho mostrou a oportunidade de aprimoramento dos procedimentos e parâmetros operacionais que regem esses cortes, de um detalhamento mais preciso dos protocolos atuais, garantindo que as restrições sejam executadas com base em critérios claros, robustos e previamente definidos, observação levantada pela própria associação representativa das distribuidoras de energia elétrica.

Sem esse aprimoramento regulatório e operacional, dificulta-se o mapeamento dos impactos/riscos relevantes para os processos produtivos acoplados à geração de energia elétrica pelas usinas de bioenergia. Diferentemente das fontes puramente elétricas, estas unidades são, em sua essência, autoprodutoras integradas a cadeias industriais também vitais, como a produção de alimentos, etanol, papel e celulose, e outros derivados.

Por isso, essas questões técnicas se integram aos aspectos estratégicos mencionados. Quando o ONS determina a interrupção ou limitação de uma usina bioenergética, não estamos falando somente de energia elétrica que deixa de ser injetada. Na maior parte das vezes, estamos falando de um potencial impacto em processos industriais que dependem do calor e da eletricidade gerados in loco.

A limitação/desconexão das usinas bioenergéticas e a subsequente necessidade de sincronização trazem riscos técnicos elevados para os equipamentos industriais e prejuízos financeiros que transcendem o setor elétrico, e precisamos observar a natureza singular desses ativos e sua capilaridade nos mais diversos setores da bioeconomia no país.

Reforça-se o compromisso da bioenergia com a segurança operativa no SIN e que a transição energética e a abundância de recursos renováveis devem ser uma vantagem competitiva ao país. O tratamento emergencial dos cortes de geração sem a segregação dos impactos em indústrias associadas, aponta para o risco de tornar o ambiente institucional menos favorável ao investimento de longo prazo.

Historicamente, o setor de bioenergia é parceiro da segurança do SIN quando há sinais de escassez hídrica. A título de exemplo, o setor de bioenergia exportou para a rede um total de quase 29 mil GWh em 2025 e 86,3% dessa geração foi concentrada entre abril e novembro/25, o sempre temido período seco e crítico no SIN.

Agora, num cenário de excesso de oferta, é crucial termos um olhar clínico para equilibrar a segurança operativa com a previsibilidade e a viabilidade econômica de quem, com bioprodutos e energia, impulsiona diversos setores (além do elétrico) do desenvolvimento nacional.

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