Opinião

Indústria Mundial de OG, Performance, Desafios e Oportunidades

Mantida a produção atual, as reservas mundiais de petróleo e gás atendem em mais 50 anos o consumo atual, sem considerar os reservatórios não convencionais. O mundo terá tecnologia e recursos financeiros para substituir a produção neste período? E o Brasil, estaremos numa posição vulnerável?

Por José Almeida dos Santos

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Coautores: Kazumi Miura e  Bruno Leonel

O mundo já produziu mais de 1,5 trilhões de barris de petróleo, desde que a conta começou a ser feita em 1900, coincidentemente quase o valor da reserva ainda remanescente, em torno de 1,6 trilhões de barris. Neste período, produziu entre 160 e 170 trilhões de m3 de gás, também volumes próximos as reservas dos reservatórios convencionais atuais, em torno de 200 trilhões de m3. O mundo produz atualmente algo em torno de 35 bilhões de barris/ano de petróleo e 4 trilhões de m3/ano de gás, sendo que mais de 70% desta produção está concentrada em 10 países.

Adicionalmente aos reservatórios convencionais, há mais de 30% de reserva de óleo dos reservatórios não convencionais, que já produzem óleo, principalmente nos Estados Unidos, Canadá, China e Argentina. Se esses reservatórios continuarem sendo explorados e produzirem nos níveis atuais, a duração das reservas mundiais de óleo terá um acréscimo de no mínimo 30%. O mesmo acontece para o gás não convencional, que registra mais de 200 trilhões de m3 de reservas, equivalente às reservas dos reservatórios convencionais. Portanto, mantidas as produções atuais, haveria um acréscimo de 50 anos de produção. Elevando para 100 anos de possíveis produções de gás.

A tabela mostra os 13 maiores produtores de petroleo, as  maiores reservas e a produção e reservas de gás. Apesar da pequena reserva, o Brasil se tornou o 9o produtor mundial de óleo, graças ao pré-sal.

Fontes: Wordmeters Energy; US Energy Information (EIA)

De todo o petróleo produzido no mundo, 71% são consumidos em veículos de cargas e de passageiros, aviões, navios, barcos em geral, máquinas da agricultura e semelhantes. Praticamente todo o petróleo que passa pelas refinarias segue na forma de derivados para o segmento de transportes. Outros 15% são usados como matéria prima na petroquímica. A geração de eletricidade em térmicas ou na indústria consome 4% de, basicamente óleo combustível e diesel, percentual que vem se reduzindo a cada ano. O segmento residencial e de aquecimento também vem migrando para o gás, mas ainda fica com uma fatia em torno de 5%. E, finalmente, uma parcela igual, de 5%, tem destino outras atividades, como aquecimento de grãos em geral e a mineração.

Basicamente, há poucas reservas de petróleo em terra a serem descobertas. A intensa busca de petróleo, usando todas as tecnologias disponíveis, contribuiu para descobertas de quase toda a reserva terrestre, mas o aumento do Fator de Recuperação do óleo já descoberto pode contribuir para o aumento das reservas e manutenção das produções futuras.

Mesmo com as descobertas offshore, em águas a cada dia mais profundas, e com os reservatórios não convencionais os acréscimos das novas reservas ainda é insuficiente para repor as reservas produzidas nos últimos anos.

Com pequenas reduções na produção atual teríamos petróleo por mais 60 anos, incluindo os reservatórios não convencionais. A figura abaixo mostra a evolução das últimas descobertas com o volume de óleo transformado em reservas, o que mostra uma redução, nos últimos 10 anos, mesmo utilizando todas as tecnologias disponíveis. O que confirma a tendência de redução de novas descobertas futuras e acréscimo de reservas.

Fontes: S&P Global Commodity Insights; Global Oil and Gas Discoveries by Satiesh Bandari

Há registros de descobertas nos últimos anos, como as listadas a seguir, mas estas adicionam volumes muito pequenos e  bem inferiores às atuais produções anuais, sinalizando que o petróleo vai se esgotar algum dia.

- Offshore da Guyana - 11 bilhões de boe
- Bacia de Orange na Namibia - 5.1 bilhões de boe
- Campo Al-Nokhatha no Kuwait – acréscimo de 3.2 bilhões de boe
- Bohai Bay na China - 1.3 bilhões de boe
- Gás na Colombia - ainda sem cubagem. mas tido como um game-change.
- Mar do Norte - 40 milhões de boe

O gráfico a seguir mostra a produção de 1900 a 2024 com três picos de tendência da produção futura de petróleo. Todos os cenários apontam para o esgotamento da produção de petróleo em torno do ano 2100 a se manter o nível atual em torno de 100 milhões barris/dia ou 35 bilhões barris/ano.

 

Fonte:BP Statistical of World Energy

Outro gráfico mostra como o consumo global do gás evoluiu entre 1989 e 2022, chegando em 2023 com mais de 4 trilhões de m3/ano com a participação de outras regiões, como o Oriente Médio e Estados Unidos. Diferentemente do petróleo, o gás exibe tendência de crescimento contínuo em seu consumo no mundo enquanto o pico de produção ainda não foi atingido. A maior dificuldade para o consumo de gás é o seu transporte, já que o mesmo deve ser liquefeito, o que consome muita energia.

Observando-se a curva de consumo de gás no mundo nesse período de 32 anos, já se nota o decréscimo no consumo da Europa e aumento expressivo no Oriente médio e Estados Unidos.

Fonte: wikipedia.org

Não há dúvidas de que o gás será o combustível fóssil do futuro, por emitir menos GEE que o petróleo e o carvão. O mercado americano usa o gás para a geração de energia (40%), indústria (32%), residências (14%), comércio e serviços (10%) e transporte (4%). Cada país tem um uso diferente, mas essa é uma tendência mundial.

No Brasil a indústria de petróleo teve um desempenho espetacular em 2024, como tem acontecido nos últimos anos. O país produziu 55,9 bilhões de m³ de gás no ano - média diária acima de 150 milhões m3 -, a maior parte vinda dos campos marítimos, equivalente a quase 1 milhão de boe/dia. Produziu também 1,22 bilhões de barris de petróleo, ou média diária superior a 3,3 milhões de barris. O conjunto óleo e gás em boe/dia foi superior a 4,3 milhões, o que torna o Brasil um grande produtor de petróleo. Como acontece com o gás, a maior parcela da produção de petróleo vem dos campos marítimos e da Bacia de Santos.

De fato, da produção total de hidrocarbonetos (óleo e gás), mais de 78% tem origem nos campos do pré-sal (em torno de 1,2 bilhões boe/ano), 16 % vem dos campos de pós-sal (0,26 bilhões boe/ano) e uma parte ínfima dos campos terrestres (em torno de 250 mil boe/ano).

A tabela a seguir detalha as produções de cada bacia em dezembro passado, segundo a ANP. Os dados de reserva são ainda de 2023 e foram incluídos considerando que a Petrobras anunciou reposição de reservas no mesmo nível da produção. Com base nas reservas e produções, é possível estimar o oil in situ nas bacias sedimentares, tomando como referência um fator de recuperação em torno de 30%.

Tendo esses números como referência, pode-se estimar que o Brasil possua reservas para 12 anos, mantendo produção e consumo nos níveis atuais, ou seja, sem reposição de novas reservas. Diríamos que isso é quase impossível, dado o tamanho dos nossos campos e o potencial não explorado em águas profundas e ultra profundas. 

Fonte: ANP

O petróleo bruto se tornou o principal item da pauta de exportação brasileira em 2024, com ingressos de US$ 44,8 bilhões. Segundo dados da Secretaria de Comercio Exterior, o petróleo representou 13,3% do valor das exportações do Brasil. Além dos elevados valores de reservas, os campos do pré-sal tem alta produtividade em seus poços, permitindo uma rápida recuperação do CAPEX investido. Conforme gráfico abaixo

Ha indicativos de que os campos do pré-sal atingirão o pico de produção nos anos 2030, o que implica avançar na busca de aumento do fator de recuperação dessas reservas com aplicações maciças de tecnologia. Como os campos do pré-sal tem volume elevado de gás, buscar alternativas para a produção e uso desse gás poderá ser muito importante no futuro, pois o aumento da relação gás/óleo com a injeção constante poderá se tornar um problema para a produção do óleo remanescente nos reservatórios.

Fonte: IBP

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